03/04/2026 - 17:00
Muito se fala em carros elétricos. Seja sobre vendas, pós-vendas, recarga, ou mesmo sobre as características e preços dos modelos em si. Afinal, apesar da franca expansão e da constância de lançamentos, trata-se de um mundo ainda novo no mercado nacional. Um dos principais desafios, no entanto, é a manutenção desse tipo de veículo, que difere completamente dos automóveis movidos a combustão interna. Isso requer, em síntese, atenção específica a componentes e sistemas próprios.
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Carros elétricos pedem menos manutenção
Em geral, carros elétricos têm menor necessidade de manutenção mecânica. E a revisão dos modelos movidos por energia armazenada na bateria dispensa equipamentos tradicionais e, consequentemente, ferramental. Por outro lado, novos aparelhos surgiram, e isso exige esforço extra tanto das fabricantes quanto das oficinas especializadas e, claro, dos profissionais que atuam no ramo.

“A principal diferença está na ausência de componentes tradicionais, como motor a combustão, caixa de transmissão, óleo lubrificante, filtros e sistema de escapamento. Isso reduz significativamente a quantidade de itens que precisam de manutenção periódica. Por outro lado, os veículos elétricos possuem sistemas mais complexos do ponto de vista eletrônico e demandam atenção especial à bateria de alta tensão, ao sistema de gerenciamento eletrônico e aos componentes de potência”, esclarece Edson Nagazawa, sócio e diretor da Unic, divisão do Grupo T-Line, um dos mais tradicionais grupos de concessionárias do Brasil.
De acordo com o executivo, os principais pontos de atenção na manutenção de um carro elétrico envolvem, antes de tudo, a bateria de alta tensão (responsável pelo armazenamento de energia), que é o componente mais crítico e de maior valor do veículo, e exige monitoramento constante de desempenho, temperatura e ciclos de carga. “Outro aspecto essencial é o sistema de arrefecimento da bateria, responsável por garantir a eficiência e a vida útil do conjunto. Os freios, embora sofram menos desgaste devido à frenagem regenerativa, também precisam de inspeções regulares”, esclarece.

Carros elétricos são mais pesados
O peso das baterias utilizadas nos carros elétricos pode impactar diretamente no desgaste de pneus e suspensões, o que demanda atenção contínua. Outros pontos de destaque são o sistema eletrônico e os softwares embarcados, “que ganham protagonismo, tornando atualizações e diagnósticos eletrônicos parte fundamental da rotina de manutenção”, frisa Nagazawa.

Diferentemente dos modelos a combustão, os carros elétricos não precisam substituir correias sincronizadoras, bicos e velas, bem como extinguem a necessidade de ferramentas de diagnóstico de pressão de combustível e injeção. Desse modo, as oficinas e concessionárias precisam de mudanças significativas para o bom atendimento a veículos elétricos, que vão além de uma simples adaptação de processos. Na prática, os estabelecimentos exigem reestruturação completa da operação técnica.
Oficina adaptada e EPIs

“Para atender carros elétricos, é necessário investir em reestruturação da oficina como um todo, desde box adaptados a fortalecimento da rede elétrica, bem como equipamentos específicos de diagnóstico eletrônico, ferramentas isoladas para trabalho com alta tensão, sistemas de segurança voltados à manipulação de baterias e até mesmo em áreas dedicadas exclusivamente a esse tipo de atendimento”, pondera Nagazawa.
Além disso, trabalhar em carros elétricos passa a exigir protocolos rigorosos de segurança, pois o risco é consideravelmente mais elevado do que em veículos convencionais – 100% a combustão. De olho nisso, cabe pontuar que equipamentos de proteção individual (EPI) são essenciais. Dentre eles, proteção facial, luvas isolantes e calçados especiais, por exemplo.

Para mexer nas baterias de alta tensão, além de deixar o carro em área isolada – para não ter contato com água e outros condutores de energia – deve-se desconectar o componente do sistema elétrico do veículo antes da reparação. Afinal, os riscos são elevados, tanto para o carro quanto para o profissional. Há possibilidade de danos à bateria, falhas no sistema elétrico e até acidentes graves envolvendo choques – que podem ser fatais. A tensão da bateria de alta voltagem, na maioria dos carros, gira em torno de 400V – podendo chegar a 800V em modelos de alta performance.
Profissionais mais preparados e menos custo

Questionado se a mão de obra também precisa mudar para acompanhar a demanda por carros elétricos, Nagazawa é enfático: “Sim, com certeza!”. Segundo ele, a qualificação técnica é um dos principais desafios do setor. “Os profissionais precisam de treinamento específico para trabalhar com sistemas de alta tensão, eletrônica embarcada e softwares de diagnóstico. A formação deixa de ser apenas mecânica e passa a exigir conhecimentos mais próximos da eletrônica e da tecnologia da informação”.

O setor ainda está em fase de adaptação, mas já dá para notar que a manutenção do carro elétrico é mais barata quando comparada a um modelo a combustão. Além de reunir menos componentes, os elétricos têm menor quantidade de peças móveis e ausência de itens como óleo e filtros, o que reduz os custos com manutenção preventiva. Por outro lado, “eventuais reparos, especialmente relacionados à bateria, podem ter custo elevado”, finaliza o executivo, que alerta ainda haver um longo caminho a ser percorrido em termos de adaptação do setor de pós-venda automotivo no Brasil, principalmente fora dos grandes centros.
