Mexicanos: Quanto valem?

Ford Fusion, VW Bora, Jetta, Variant e New Beetle, Nissan Sentra e Tiida, Honda CR-V: todos estes carros têm em comum o fato de serem importados do México. Hoje, você pode comprá-los aqui porque foi assinado um acordo comercial entre o Brasil e o México, com isenção total dos 35% do Imposto de Importação – que todos os demais importados, com exceção dos fabricados no Mercosul, têm embutido em seus preços.


O que poderia deixá-los com valores bem mais acessíveis para o consumidor brasileiro tem sido, na realidade, muito mais vantajoso para as montadoras instaladas aqui, que os importam. Pesquisamos os preços de vários destes veículos no México, somamos os impostos cobrados aqui e os comparamos com os preços praticados em nosso mercado. E mais: fizemos o mesmo com alguns modelos importados de outros países, apenas para efeito de comparação.

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Quando um veículo é importado, não se paga apenas Imposto de Importação. Há ainda que se pagar pelo transporte, pela logística e pelos demais impostos (ICMS, IPI, Cofins). Todos os importados pagam as mesmas taxas, mas os mexicanos têm a enorme vantagem de não pagar altíssimos 35% de Imposto de Importação. Fizemos as contas: começamos com os preços que são cobrados no México, já inclusa a carga tributária de lá. Depois, descontamos estes tributos, junto com a margem de lucro das revendedoras que operam lá e as despesas médias com marketing. Resultado: os mexicanos custam aqui de 44% a 84% mais do que poderiam – veja na tabela acima os valores aos quais chegamos. As porcentagens de tributação, margem de lucro, custos com marketing, logística e nacionalização, em alguns casos, tiveram que ser estimadas e aproximadas, já que a composição exata dos preços dos veículos é guardada a sete chaves pelas montadoras.

Fomos, então, ouvir as montadoras sobre estas questões: a assessoria da Ford disse que não iria comentar a “estratégia de composição de preços dos veículos da marca em qualquer mercado”, mas afirmou que o Fusion fabricado no México e vendido aqui “exige adequação de itens às normas locais, bem como ao combustível”, e que “a incidência dos custos de logística e transporte marítimo e terrestre têm forte impacto no preço”. E ainda: “O Fusion tem preço altamente competitivo em relação a seus principais competidores. Para se manterem competitivos, nossos concorrentes, em alguns casos, necessitam adequar o preço dos seus veículos ao do Fusion.” A resposta da Nissan foi quase idêntica, e a Honda não respondeu. A VW seguiu pelo mesmo caminho, com argumentações sobre cargas tributárias diferentes nos países, custos de logística e despesas de adaptação do carro para as especificidades do mercado brasileiro.

Fomos, então, consultar o especialista Paulo Cardamone, diretor do braço brasileiro da consultoria CSM Worldwide, responsável pelo Serviço de Previsão de Produção de Veículos na América do Sul, que incorpora análise de fabricantes e de estratégias de produtos. Cardamone trabalha na indústria automotiva há mais de 29 anos, com extensa experiência em análise de mercados. Foi ele quem nos ajudou na elaboração da tabela que você confere acima.

Não há uma única resposta para os preços altos dos mexicanos. Em primeiro lugar, não interessa às montadoras vender um modelo muito abaixo do valor de seus concorrentes, com qualidade e características semelhantes – é a lei do mercado. Em segundo lugar, o mexicano, se barato demais, poderia “canibalizar” outros produtos da marca. O especialista concorda, e ainda acrescenta: “A margem das montadoras [com os carros mexicanos] é fantástica! Os 35% de isenção, mais o lucro, estão indo para o bolso das montadoras.” Mas o lucro maior em um produto pode significar uma redução no preço de outros.

Se um Jetta, por exemplo, custasse menos que um Golf, poucos iam comprar o hatch (com plataforma uma geração defasada). O mesmo ocorreria se o Bora custasse o mesmo que o Polo Sedan. Ainda: se os cerca de R$ 80 mil cobrados pelo Fusion estão na média de preço dos rivais, e suas vendas vão bem, a marca aproveita para embolsar um lucro maior. “Cada um faz o lucro que pode”, explica Cardamone.

As grandes montadoras, portanto, estão ganhando muito com a venda dos mexicanos, enquanto você, consumidor, aproveita os interessantes veículos vindos daquele país. Os altos preços dos carros nacionais também influem nos preços dos importados. “O mercado é equilibrado pelos altos preços internos. Pelo preço de um Mille 1.0, compra-se um Fit 1.5 nos Estados Unidos. Se houvesse um comércio livre no mundo todo, estaríamos fritos”, diz Cardamone. Se o governo diminuir a carga tributária, ajudando a reduzir os preços dos modelos produzidos aqui, os importados, não só os do México, podem ficar mais baratos. Aguardamos a reforma tributária.

Abaixo, alguns mexicanos à venda no Brasil: Nissan Tiida, New Beetle, Bora, Honda CR-V, VW Jetta (com plataforma do Golf europeu) e Ford Fusion. São carros bem atraentes, mesmo com os preços praticados, mas poderiam ser mais baratos

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