Mudança de DNA

A Eslovênia é um pequeno e belo país (parte da antiga Iugoslávia) com pouco mais de dois milhões de habitantes, voltado para o mar Adriático. Entre a capital Liubliana e o litoral, um trecho montanhoso cortado por várias estradas estreitas, muito sinuosas mas bem asfaltadas. Foi esse o cenário escolhido pela Mercedes para a apresentação de seu novo Classe A. Um percurso que ia do aeroporto de Liubliana até Portoróz, simpática cidade litorânea quase na fronteira com a Itália, seguindo por boas rodovias mescladas a tortuosas estradinhas nas montanhas. Um trecho pensado para os jornalistas perceberem a suspensão primorosa e a tocada do modelo.

A Mercedes cansou de apanhar da BMW e da Audi e decidiu projetar o novo Classe A a partir do zero. Abandonou a ideia do monovolume familiar e lançou um hatch cheio de esportividade, no visual e no desempenho. Do antigo Classe A (fabricado em Juiz de Fora de 1999 a 2005) não sobrou um parafuso, já que a nova geração foi projetada “a partir de uma folha de papel em branco”, como disse Dieter Zetsche, presidente da Daimler. Pensando muito mais no público jovem do que na família, seus designers se curvaram diante do sucesso dos hatches compactos premium nos principais mercados mundiais. Em sua alça de mira estão o BMW Série 1 e o Audi A3.

Nas estradinhas, sua suspensão traseira multilink de quatro braços o mantém firme, ereto e grudado no chão por mais que se abuse. Na frente, a tradicional McPherson com amortecedores a gás. A engenharia da Mercedes só falhou ao cobrar pela estabilidade o preço de se sentir as imperfeições da pista, seja pelo reduzido entre-eixos, pelos pneus de perfil baixo ou por ambos. Nas autoestradas, o A250 Sport passa fácil dos 200 km/h, sem ameaças. Nas versões A 180 (122 cv) e A 200 (156 cv), ambas com motor 1.6 turbinado, a impressão que se tem é de que sobra suspensão. Parece que ela foi mesmo afinada para o motor mais “quente” , o 2.0 (também turbo, 211 cv) do A 250.

Interior luxuoso, bem-acabado e com muita eletrônica embarcada. Alguns detalhes esportivos foram herdados do modelo SLS AMG

Todas essas unidades são dianteiras, transversais e têm injeção direta, mas há dois pontos questionáveis: ao contrário de outros motores turbinados – em que já não se percebe tanto a falta de potência antes das 2.000 rpm – o do Classe A ainda dá uma aflição no motorista até o turbo se apresentar. A segunda é que, enquanto o A 250 é um “foguetinho” para arrancar e chega a 240 km/h e o A 200 tem, pelo menos, um desempenho que não compromete, o A 180 deixa a desejar. Carregado, ele só terá esportividade mesmo nas linhas da carroceria… Com relação ao câmbios, duas opções: o manual de seis e o 7G-DCT, automático de sete marchas com dupla embreagem. Claro que este último é melhor em rapidez e suavidade de mudanças, mas, rodando devagar, surgiam uns trancos durante as passagens.

Por dentro, o acabamento é primoroso, o painel lembra fibra de carbono, as saídas de ar são semelhantes às da SLS e todo o acabamento do painel é feito com material cromado ou anodizado em prata. No meio, uma tela (fixa) com todas as funções de comunicação, informação e entretenimento no display. O volante de três raios tem 12 botões de comando. No A 250 Sport um “pacote” de acabamento AMG se une a mudanças mecânicas. Os bancos dianteiros são extremamente anatômicos e o traseiro acomoda dois adultos com relativo conforto. O túnel prejudica quem vai no meio, pois é um pouco elevado e foi projetado para receber (no futuro) a tração integral. O porta-malas é bom com seus 341 litros e o banco traseiro se reclina integralmente.

Todos os motores são equipados de série com o sistema startstop que os desligam e voltam a ligá-los automaticamente quando o carro para. A direção é assistida eletricamente. Os discos de freio dianteiros são ventilados, os traseiros sólidos. O freio de estacionamento é elétrico. Aliás, o novo Classe A tem muita eletrônica embarcada. Em termos de conectividade, por exemplo, a Mercedes pediu auxílio à Apple e o carro está integrado ao sistema iPhone com Facebook, Twitter, navegação (Garmin), Google Maps com destinos acionados por voz, internet por celular, informações em tempo real do trânsito, meteorologia e aplicativos de notícias.

Tela central reúne as funções de comunicacão e

entretenimento, com acionamento também por voz

Na segurança ativa, dispositivos só presentes em modelos mais sofisticados. Os cintos, depois de afivelados, se ajustam automaticamente ao corpo. Sensores percebem o cansaço do motorista e a mudança involuntária de faixa. Outro dispositivo avisa sonoramente que o carro está se aproximando de outro veículo à frente e prepara o sistema de freios para atuar com mais intensidade assim que o motorista acionar o pedal e o “pre-safe” tensiona os cintos, fecha as janelas e o teto solar diante de uma possível capotagem. Na segurança passiva, airbags, ESP e um capô ativo para proteção do pedestre.

O preço da versão básica, na Europa, é de € 24 mil. Sua comercialização no Brasil está prevista para o final do primeiro semestre de 2013 e seu preço deve partir de R$ 100 mil, alinhado – ou até um pouco abaixo – com o valor dos concorrentes.

A família no Brasil

Na Europa, a Mercedes não abandonou o público que aprecia o monovolume para a família, que continuará a ser atendido pelo Classe B. Além dele, a plataforma do novo hatch dará origem também a um sedã-cupê de quatro portas (abaixo), anunciado com exclusividade por MOTOR SHOW há dois anos; além de uma station e um SUV compacto. Ao contrário do antigo Classe A, seu sucessor faz parte de uma família de novos modelos, o que viabilizaria sua produção no Brasil. Os diretores da empresa não confirmam que a hipótese está em pauta. Mas o desastre do Classe A em Juiz de Fora ainda é recente e eles pisam em ovos. Desta vez é: acertar ou acertar.

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