Uma semana após uma disputada apresentação no Salão de Pequim, no final de abril, encontramos, no coração da Chery Automobile, em Wuhu, na China, Guibing Zhang, vice-presidente executivo da gigante chinesa e presidente da Chery International, braço global do grupo responsável por operações de expansão da marca fora do mercado chinês.

O executivo conversou com MOTOR SHOW e outros meios de comunicação sobre a atual operação no Brasil. Vale lembrar que a marca já havia passado pelo país antes com operação própria, a partir de 2009, mas à época a qualidade dos carros era sofrível, e por isso, além de problemas com sindicatos e mudanças nas políticas do governo, a primeira fábrica do grupo fora do Brasil, em Jacareí, acabou sendo um fracasso.

A operação naufragou, e quem veio socorrê-la foi o esperto Carlos Alberto Oliveira de Andrade, o “Sr. Caoa”, que comprou 51% das operações brasileiras da Chery em 2017, formando a Caoa Chery. A fábrica de Jacareí até hoje não decolou, seguindo praticamente abandonada, mas a Caoa e os filhos de Carlos Alberto, falecido em 2021, seguiram fortes, “limparam” a imagem da marca e hoje faturam alto com a marca Caoa Chery.

Depois disso, a Chery se tornou a maior exportadora de veículos da China, por meio da Chery International, e criou muitas outras marcas para operar pelo mundo, sendo que algumas delas nem existem na China, como Omoda & Jaecoo – que bateu recordes ao chegar a 1 milhão de carros vendidos em apenas três anos de história, e agora quer passar a vender um milhão de carros por ano, globalmente.

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coletiva Chery international Salão de Pequim
Coletiva da Chery International no Salão de Pequim (foto: Flávio Silveira)

Nesse curto período, a Omoda & Jaecoo chegou a 69 mercados diferentes, como uma concessionária aberta por dia no planeta. No Brasil, chegou há menos de um ano, e em abril já colocou o SUV Omoda 5 no topo do ranking de vendas de híbridos plenos (HEVs), superando Corolla, Yaris Cross Corolla Cross (da poderosa Toyota, que faz híbridos há quase desde 1997 e está no Brasil desde 1958).

Sem querer dividir o resto do “bolo” com a Caoa, as novas marcas sob comando da Chery International chegam com operação própria: Omoda & Jaecoo e Jetour já estão aqui desde o ano passado, e o grupo está fechando a compra da fábrica da Land Rover em Itatiaia (RJ) para produção de carros da Omoda & Jaecoo e, quem sabe, de outras marcas já confirmadas para o Brasil, como Lepas (elétricos refinados) e Exeed (luxo), além de outras em estudo, como a iCar (“estilo jipe”). Confira a seguir a entrevista completa:

Flávio Silveira: A China tem mais de 100 marcas e, mesmo em um mercado tão grande, estamos vendo algumas consolidações e algumas falências. O Brasil é um mercado muito menor, mas já tem cerca de 40 marcas ativas. O senhor não considera arriscado investir em um mercado que parece saturado — se não por marcas, pelo menos por produtos —, especialmente no segmento de SUVs compactos e médios?

Sr. Zhang: Na verdade, o Brasil é um mercado grande, um dos dez maiores do mundo, com muitas marcas e concorrência forte. Nós chegamos ao Brasil há muito tempo. Teve um período no passado em que não fomos bem-sucedidos. Faz mais de 15 anos, e no começo não tivemos sucesso, mas agora estamos procurando um caminho diferente. Antes, procuramos parceiros locais que tivessem mais experiência. Agora, estamos tentando usar uma abordagem diferente para entrar de verdade no mercado: entender as demandas reais do cliente, como projetar e fazer modelos diferentes para este mercado específico.

Também estamos tentando entender a política atual do governo e a situação fiscal distinta. Passo a passo, hoje, podemos dizer que já temos alguma experiência acumulada. O mercado brasileiro é muito importante. Não temos outra opção. Temos que entrar e fazer o consumidor gostar de nós, e também estamos dispostos a deixar o governo satisfeito, pagando impostos e gerando empregos. Essa é nossa intenção principal no Brasil.

fabrica Chery International em Wuhu
Fábrica da Chery International em Wuhu (foto: Flávio Silveira)

Pergunta: A Chery tem planos ou metas para entrar no top 10 de vendas no Brasil?

Sr. Zhang: Claro, esse é o meu objetivo. Atualmente, em muitos países, a Chery ocupa o primeiro, segundo ou terceiro lugar. No mês passado, fomos a marca número um dois em volume total no Reino Unido, e com o Jaecoo 7 conseguimos o primeiro lugar. Portanto, a Chery tem capacidade para vencer em alguns mercados. Obviamente, mercados diferentes têm exigências diferentes, além de políticas distintas. Em relação à nossa capacidade geral, estamos preparados, mas precisamos trabalhar muito e somar nossa competência com o profissionalismo local para construir uma base sólida. O Sr. Hu [CEO brasileiro da Omoda & Jaecoo] é uma ponte entre China e Brasil, e está entendendo o mercado brasileiro. E também precisamos compreender a política governamental. Precisamos de tudo isso junto. Conforme nos aprofundarmos e entendermos o mercado, estaremos mais preparados para avançar e fazer produtos melhores. Temos a chance de ser top 10, e até top 3.

Pergunta: Como a Omoda e a Jaecoo vão operar em relação a marcas como a Lepas e a Jetour. Serão marcas de nicho premium ou marcas de grande volume?

Sr. Zhang: Diferentes marcas têm clientes, posicionamentos e propostas diferentes, e também preços distintos. Não queremos a Chery e suas outras marcas misturadas, em uma dinâmica familiar confusa. Temos um princípio claro para tentar  diferenciá-las. Ontem, por exemplo, tivemos três eventos. De manhã da Chery, à tarde da Omoda/Jaecoo, e à noite, da Chery. Eles foram completamente diferentes. A Chery é tradicional. Na apresentação da Lepas, não estávamos em uma sala fechada, estávamos ao ar livre, em um ambiente aberto, com as pessoas relaxadas. No evento da Omoda & Jaecoo, havia música o tempo todo, DJ… Ou seja, criamos propostas distintas. O objetivo é separar claramente as marcas. Sem misturas. Essa é a questão mais importante para nós.

Sr. Zhang, presidente da Chery International
Sr. Zhang, presidente da Chery International (foto: Flávio Silveira)

Pergunta: Vocês já definiram a Omoda & Jaecoo e a Jetour terão produção local. O que falta para definir a produção no Brasil?

Sr. Zhang: Com a atual política governamental, qualquer fabricante que queira competir a sério é encorajado a produzir localmente, caso contrário o imposto inviabiliza o negócio. A taxa de importação está subindo para 35%. É bastante. Por isso, não é necessário que ninguém me pressione. Eu mesmo preciso me pressionar para finalizar rapidamente o projeto de fabricação local. Hoje posso estar perdendo dinheiro, mas se uma nova política tributária entrar em vigor mais à frente e não estiver produzindo localmente, o prejuízo será maior. Preciso encontrar rapidamente a forma de viabilizar a produção, pois é uma questão comercial e estratégica para nós.

Pergunta: Sobre a operação da Exeed, espera-se que chegue ao Brasil muito em breve. Queremos entender como será a operação da marca no Brasil, porque há muita expectativa do público brasileiro sobre quais carros esperar. O que pode dizer?

Sr. Zhang: Quero levar a Exeed o mais rápido possível ao Brasil. Mas, quando entramos em um mercado, é preciso uma análise rigorosa. Tenho que ter certeza de que teremos um negócio sustentável a longo prazo. É fácil chegar com foco apenas em volume, mas entrar de verdade em um mercado envolve muitos concessionários que vão investir muito dinheiro. Se o negócio falhar, a Chery criará um grande problema para esses parceiros. Na China, a Exeed foca em carros grandes. No entanto, em muitos mercados internacionais, como o Brasil, o forte são os carros menores. Por isso, estou tentando encontrar uma forma de equilibrar as coisas, sentir que a Exeed pode entrar no Brasil com garantia de sobrevivência a longo prazo e desenvolvimento sustentável. Não quero lançar por lançar. Se eu lançar o carro e, passados um ou dois anos, o volume não crescer e eu não conseguir dar suporte técnico, isso será um grande problema para os clientes e para a rede. Estamos atentos aos novos modelos que estão a caminho. Se conseguirmos alinhar os novos produtos com as exigências do mercado brasileiro, com certeza faremos o lançamento.

carros eletrificados: Omoda 5 HEV
Omoda 5 HEV – Foto: Mauro Balhessa/IstoÉ

Pergunta: No Brasil, o projeto começou com modelos premium, como o Jaecoo 7 e o Omoda 5. Agora estamos vendo modelos mais acessíveis, como o Jaecoo 5 e o Omoda 4. É um sinal de que a Omoda & Jaecoo está caminhando para a base do mercado com produtos como o futuro Omoda 2? Podemos esperar o modelo no Brasil?

Sr. Zhang: Precisamos de equilíbrio. Se tivermos só carros de preço elevado, o volume de vendas será reduzido. Estamos construindo um bom posicionamento com a Jaecoo. Mesmo quando olhamos para os modelos mais compactos da Omoda, como o Omoda 4, não sinto que as pessoas os verão como carros de uma marca de baixo custo. O design transmite o visual de carro premium, embora menor. Claro que cada marca precisa cobrir diferentes nichos, mas o posicionamento não se define só pelo preço, mas também pela imagem que transmite. Mesmo que o preço dos novos modelos seja competitivo, isso não afetará a imagem da marca. Já o projeto do Omoda 2 está em progresso. No caso do Brasil, precisamos avaliar a questão do motor flex e dos incentivos. Em outros mercados, deve chegar até o final do próximo ano, mas no Brasil talvez um pouco mais tarde.

dianteira do Jaecoo 5 HEV - Omoda & Jaecoo
Jaecoo 5 HEV – SHS-H 2027 (foto: Flávio Silveira)

Pergunta: O mercado brasileiro olha muito para o pós-venda, pensando na durabilidade dos veículos e na assistência técnica. Vocês planejam algo específico para atender a essa necessidade? Como estão estruturando a cadeia de pós-venda?

Sr. Zhang: Estamos reforçando a equipe local. Levamos muitas pessoas da nossa sede para dar suporte: engenheiros técnicos, equipes de peças de reposição e pessoal para o sistema de CRM [softwares de relacionamento]. Assim, conseguimos apoiar rapidamente a operação local na busca por soluções. Em segundo lugar, criamos um sistema de monitoramento internacional. Se surgir um caso crítico no pós-venda, nosso sistema global consegue detectá-lo e acompanhar a resolução imediatamente.

Inteligência Artificial

Pergunta: Qual é a estratégia da marca para o uso de Inteligência Artificial, como pretendem implementá-la e qual sua visão para outras tecnologias disruptivas nos veículos das marcas da Chery.

Sr. Zhang: A IA é um recurso fundamental para o futuro. Fundei nosso departamento de modelos de IA há quatro anos, quando muito poucas empresas discutiam o tema em nível global. Hoje temos um programa muito sólido e estamos a caminho de liderar esta área na China. Muitos dos vídeos e materiais da nossa marca não são gravados com câmeras tradicionais; são criados por IA. Também já utilizamos IA diretamente no design dos automóveis. Na China, cada marca está reagindo e aplicando a IA de formas diferentes. Estamos preparando novas tecnologias e microchips nessa área. Fechamos parcerias com cerca de 100 universidades para apoiar a criação de laboratórios de robótica, ensinando a utilizar robôs em linhas de produção, entre muitas outras iniciativas.

Pergunta: Assim que a estratégia de híbridos flex estiver estabelecida no Brasil, qual será o próximo grande passo da Omoda & Jaecoo para sustentar o crescimento e a liderança tecnológica a médio e longo prazo no país?

Sr. Zhang: O mercado automotivo está migrando para as novas energias. Mas, além da eletrificação, o próximo passo é a conectividade e a inteligência dos veículos. Atualmente, devido aos preços dos combustíveis e às crises globais, as pessoas sentem que a nova energia traz vantagens financeiras no uso diário. A indústria chinesa fez investimentos maciços nesta área. O próximo diferencial será o carro inteligente. O consumidor não vai querer um carro que seja bom de dirigir, mas “burro”. No futuro, se quiser sair, poderá chamar o carro pelo celular e ele virá ao seu encontro na porta e ficará esperando. Quando terminar o trabalho, sairá do carro na porta do escritório e ele procurará uma vaga no estacionamento sozinho. Este é o próximo salto tecnológico.

Lepas 6 (foto: Flávio Silveira)

Pergunta: A marca do grupo Chery, a iCar, tem foco em clientes que procuram produtos no estilo do Jeep Renegade e Compass — carros de linhas mais quadradas e robustas. O senhor considera que a iCar é uma marca com futuro comercial no Brasil?

Sr. Zhang: Sim. Sendo muito sincero, dedicamos muito tempo a desenhar a estratégia dessa marca. Nossas pesquisas indicam que uma grande quantidade de pessoas procuram esta proposta. E por quê? A maioria das pessoas já comprou os SUVs tradicionais, mas procuram coisas novas. Estes carros são muito potentes e eficientes. O cliente que escolhe um iCar procura uma ligação emocional diferente, e queremos entregar essa experiência. Acredito muito no sucesso da proposta da iCar.