Muito além das pistas

“Eu não tenho a menor vontade de voltar a correr” – Jackie Stewart

Foi nos boxes de Interlagos, durante o GP Brasil de F-1, que fiquei cara a cara com Jackie Stewart. Não tinha entrevista agendada, mas resolvi arriscar. “Podemos conversar um minuto?”, pergunto reticente. Com uma simpatia que, sinceramente, não esperava encontrar, ele sorriu e respondeu: “Claro que sim!” Sentados em pneus, conversamos não um, mas 20 preciosos minutos.

Nascido na Escócia, em 11 de junho de 1939, Jackie Stewart foi tricampeão de F-1. Iniciou a sua trajetória pela equipe BRM. Logo em seguida, assumiu o bólido do time Matra, em 1968. O primeiro título veio no ano de 1969. De 1971 a 1973, defendeu as cores da Tyrrell e conquistou mais dois mundiais. Também lutou pela maior segurança na F-1 com o desenvolvimento de novos capacetes e dos macacões antichamas. Em 1997, fundou a sua própria equipe, a Stewart. Dois anos mais tarde, com muitas dívidas, Jackie decidiu vender a Stewart para a Jaguar.

Como iniciou a sua carreira?

Meu pai era mecânico e eu trabalhava com ele. Preparávamos carros para clientes ricos. Alguns até participavam de corridas, em pequenos eventos na Escócia. Certa vez, meu pai me deixou correr como forma de me recompensar pelo trabalho. Logo na minha primeira participação, cheguei em segundo lugar. Na prova seguinte, ganhei. E, desde então, minha carreira deslanchou.

Quando veio a primeira vitória na Fórmula 1?

Foi no Daily Express Internacional Trophy, em Silverstone, em 1965. Era apenas a minha quarta corrida.

Qual foi a melhor a corrida da sua vida?

Minha melhor corrida aconteceu no ano de 1968, em Nurburgring. Chovia e tinha muita neblina na pista. Eu terminei em primeiro com uma diferença de quatro minutos para o segundo colocado.

Há alguma outra prova que se destaque em sua memória por algum motivo especial?

Com certeza, a corrida na qual François Cevert faleceu. A pior de minha carreira, sem dúvida. Foi em 1973. Ele era o meu parceiro na equipe Tyrrell. O carro que ele dirigia escapou na pista, bateu no guard rail, virou e arrastou François por mais de 100 metros. Ele foi degolado e morreu instantaneamente. Terrível. Em respeito a esse acontecimento e à equipe, nunca cheguei a minha centésima corrida. Para mim, foi a coisa certa a fazer. Não iria me sentir bem.

Decidiu encerrar a sua carreira.

Era hora de parar. Pelo lado emocional, mental e físico. Por sorte, eu percebi isso a tempo e terminei como campeão do mundo. O acidente mexeu muito comigo. Por isso, não tenho a menor vontade de voltar a correr.

Nos tempos da equipe Stewart, apresentando o carro de 1997 e comemorando com seus pilotos Johnny Herbert e Rubens Barrichello. Abaixo, a direita com o colega Frank Williams

Ao todo foram quantas vitórias conquistadas na sua carreira de piloto?

Foram 27 vitórias em 99 corridas. Não participei de tantas corridas, mas acredito que a minha média tenha sido muito boa.

Se tivesse de escolher um carro que tenha marcado sua carreira, qual seria. E no geral? Qual o mais significante de todos os tempos?

O meu carro de 1969 era fantástico. Aliás, o de 1973 também foi muito bom de guiar. Já o melhor de todos os tempos… ah, os Lotus, os Ferrari e os McLaren. Existem há muito tempo e continuam em plena atividade.

Qual o seu ídolo na história da Fórmula 1?

O melhor de todos: Juan Manuel Fangio.

Já competiu em outras categorias?

Com city cars, em Indianápolis, e nas F-2 e F-3.

O sr. foi proprietário de uma equipe de Fórmula 1. De onde surgiu a ideia e como analisa o desempenho de seus pilotos?

Em 1997 fundei a equipe Stewart. Tomei essa decisão por causa do time de engenheiros que tinha. Eram ótimos! Nosso primeiro piloto a correr foi o brasileiro Rubens Barrichello e ele era muito bom para a gente. Inclusive ele conquistou uma pole position no GP da França, em 1999. Já Johnny Herbert venceu o GP da Europa, também em 1999.

À esquerda, com sua esposa, Helen Stewart. Acima, ainda nas pistas pilotando o F-1 da equipe Tyrrell em 1973. Ao lado, na apresentação do carro da Jaguar, que assumiu o time Stewart

Qual sua opinião sobre a segurança dos carros de Fórmula 1 hoje em dia?

Atualmente, tanto a segurança das pistas como a dos carros é fantástica. Há muito tempo não há um acidente fatal na categoria. O último foi há 17 anos, sete meses e 22 dias. Ou seja, a gestão de risco da Fórmula 1 é muito, muito boa. Atualmente, as várias empresas do mercado testam cada vez mais os seus produtos e isso se reverte em proteção maior para os envolvidos.

O sr. lutou por essas melhorias. Na sua visão, qual a maior contribuição que deixou para a Fórmula 1?

Fui o primeiro a usar um capacete que cobrisse o rosto inteiro e ajudei a desenvolver o macacão antichamas. Para mim, foram as minhas maiores contribuições.

Entre as contribuições do tricampeão para a segurança da Fórmula 1 estão a utilização do capacete fechado e o macacão antichamas

Como vê os pilotos brasileiros no automobilismo mundial?

Primeiramente, estar em Interlagos é ótimo. Não tem lugar melhor no mundo. Os brasileiros precisam investir no automobilismo. Vocês têm pilotos fantásticos e deveriam incentivar para garantir sempre ótimas condições e descobrir novos talentos.

O que faz atualmente?

Estou na Genii, uma empresa de alta tecnologia que procura pessoas jovens e investe no talento delas. Trabalho como conselheiro e eles usam a minha imagem no marketing da empresa.

Nos bastidores de qualquer GP, Jackie Stewart é figura sempre presente. À esquerda com o piloto Alain Prost e à direita com o ator Paul Newman e com Bernie Ecclestone