Quando eu era moleque e vivia no Rio Grande do Sul, meu pai botou a família num Dodge Dart SE e fomos passar o verão no Rio de Janeiro. No caminho, ele desviou a rota para Caçapava (SP), para visitar o museu do Roberto Lee, maior colecionador de carros antigos que se conhecia no Brasil da época. Eu e meu irmão curtíamos Emerson Fittipaldi e todo o barato de F1 que estourava por aqui nos anos 70. A paixão, claro, veio do velho, um médico doido por carros e aviões – e tudo que tivesse motor entre o céu e a terra. Nunca vou esquecer aquele galpão ensombrado, cheirando a tijolo e óleo, num lugar improvável no interior de São Paulo. Lembro até de uma Alfa Romeo “baratinha” raríssima no mundo todo (perdão se eu estiver errado), que só víamos em brinquedo. Aquela era uma época em que carro antigo era chamado de velho: estávamos no auge do “milagre econômico” da ditadura, o Brasil trocava sua frota e choviam “calhambeques” nas esquinas das cidades.

+Não basta acelerar, é preciso ter estilo

A melhor camiseta pra dar um rolê sobre rodas

Bem, lembro desse passeio toda vez que viajo (viajava?) ao exterior e incluo museus de automóveis no roteiro. Aliás, isso nem sempre dá certo. Quando você vai com a família, por exemplo, sempre rola uma negociação: “Pessoal, que tal uma visita ao museu da Alfa Romeo quando estivermos em Milão?” (Não adianta esconder da garotada que o museu fica a 25 quilômetros da cidade – um clique no celular e você é desarmado). Em Munique, é mais fácil: o museu da BMW fica na região central. Ali está, por exemplo, a Brabham BT52 que Nelson Piquet pilotou ao vencer, em 1983, o primeiro campeonato da era turbo da fórmula 1. Se o museu alemão é super clean, com iluminação especial, e foco na tecnologia e no design (há motos incríveis dos anos 30), o italiano é pura velocidade: dezenas de carros de sonhos, de gran turismo, fórmula 1, rally, stock… Mais: no museu da Alfa, você pode chegar bem próximo dos carros e eles literalmente cheiram a competição – sim, exalam aquela fragrância com notas de graxa, combustão e borracha que faz muitos de nós ajoelhar e rezar.

PreviousNext

Quando não precisa negociação – exemplo: a família compartilha da paixão ou você vai sozinho, a trabalho –, dá pra curtir mais devagar. Vi sozinho muitas maravilhas, como o museu da GM em Detroit. A picape Chevrolet Brasil 1960, que em 2005 chegou praticamente rodando de São Caetano (SP) até Michigan, para o aniversário de 80 anos da marca no Brasil, é uma das joias do espaço. Há muitos carros de linha das marcas da GM (Chevrolet, Buick etc), carros conceitos, Corvettes a rodo e diversão pros sentidos sem parar.

PreviousNext

Ok, não estamos aqui para falar das minhas viagens, mas de como curtir durante e depois das visitas. Museus, em geral, são experiências sensoriais, num sentido amplo. Você degusta o prazer da história. Da nossa e da humanidade. Ali você recarrega sua paixão, agrega conhecimento. Mais do que tudo, você transcende no tempo, para trás e para frente. Como diria uma campanha publicitária, isso não tem preço (quer dizer, tem sim, e às vezes sai caro). Ou seja, ao visitar um museu de carros e/ou motos – ou tudo que se refere a motores (avião, trem, navio, autorama…) –, você ilustra a saudade e lustra a curiosidade. Os bons museus, sempre acreditei, não são os temáticos em nostalgia (sentimento melancólico, diferente da saudade, esse sim, que traz à vida objetos do passado). Os museus mais legais são os fazem vibrar nossa curiosidade pela novidade (pode ser aquela de um século atrás), pelo design, pela velocidade, pelo transporte, pela tecnologia, pela história da época que nutriu aquela invenção, pela capacidade humana… Enfim, nos comovem por alimentar interesses contemporâneos e nos fazem refletir sobre o futuro. Por que os carros atuais parecem todos iguais? Por que não se usa mais cromado? Por que as rodas das motos estão deixando de usar raios?

Mais do que tudo, museus são referência de bom gosto – ou você já viu peças horríveis num museu de arte? Sim, carro, moto e avião podem ser uma obra de arte. O Museu de Arte Moderna de Nova York (Moma) tem em sua coleção um Jaguar E-Type Roadster 1963 e um helicóptero Bell-47D1 ano 1945. Acho que é uma boa chancela para a defesa do argumento acima.

Arte e história sempre rendem bons papos entre uma turma legal. Pode ser sobre um mural do Diego Rivera, o artista comunista mexicano que produzia para os maiores capitalistas americanos (vi alguns em Detroit), ou sobre as linhas de uma Bugatti. Aí está sua chance de mostrar-se interessante e interessado (o pós-guerra e os carros populares, as curvas dos paralamas e a art nuveau, o minimalismo Bauhaus…). Especialmente se você estiver num círculo de pessoas que não são totalmente aficcionados por carros. Ao mostrar fotos de um Thunderbird 1957, por exemplo, com aquela janelinha redonda na capota e as lanternas em forma de turbinas, você pode temperar o papo com a informação de que aquele clássico foi inspirado nos foguetes dos anos 50. E que a indústria automobilística, assim como outros segmentos da indústria (de aspiradores a programas de TV), foi muito influenciada pela conquista do espaço. Talvez alguns saibam. Outros não. Esses vão ficar gratos. E você vai sair bem na foto.

A era espacial: um Ford Thunderbird 1957 com vidro da capota e lanternas inspirados em foguetes (Foto: Wikimedia.Commons)

Não é por acaso que toda marca premium de carro e moto tem um museu, a maioria espetacular. Ali estão depositados os frutos de seus melhores esforços em design, mecânica, competição, conforto, e até tentativas frustradas de fazer a história avançar além do que a época permitia. O Firebird 1954 Experimental que se encontra no museu da GM em Detroit, cuja foto que está na abertura desta matéria, é um bom exemplo.

Marcas sabem que história importa: ao explicar o que elas fizeram e conquistaram, podem fazer você associar a própria personalidade, seu jeito de pensar, seu estado de espírito – aventureiro ou acomodado – àquele portfólio de projetos legais. Se você der muita sorte, ainda pode encontrar alguma figura importante trabalhando no museu. Como jornalista, tive a oportunidade de ser apresentado, em 2013, a Willie G. Davidson, neto do fundador da Harley Davidson, à época tocando a equipe de design da marca. Se pessoas como Willie trouxerem mais informação do que se lê nas plaquinhas referentes a cada peça, ou no livro que você vai comprar na saída (por uma grana preta), você está no céu. No meu caso, Willie falou de como ajudou a recuperar a marca em 1982 (estava nas mãos de uma empresa de equipamentos de esporte) e de como trouxe o estilo Harley (goste-se ou não) de volta às ruas e estradas.

Com Willie G Davidson, neto do fundador da Harley-Davidson: fonte de informação que fará mais bem ao seu estilo do que a “foto com celebridade” (Arquivo Pessoal)

Talvez ainda demore para a gente poder viajar em busca de museus. Mas, você sabe, dá para curtir em visitas virtuais parte da experiência transcendental que nos seduz nessses templos de vibração, bom gosto e reflexão. Aqui vão algumas, para você não morrer de fome.

+ Museu da Mercedes-Benz 

+ Tour Virtual pelo museu da Audi

+ Honda Collection House