O ataque dos turbo: Cruze 1.4 e Jetta 1.4 vs. Corolla 2.0 e Sentra 2.0


Levamos quatro sedãs médios para se divertirem no Parque Hopi Hari, entre São Paulo e Campinas. Dois turbos versus dois aspirados. O novo Chevrolet Cruze (turbo) comprou seu ticket para andar no sobe-e-desce da montanha russa do mercado. E ele está a fim de roubar o algodão doce e a pipoca do líder Toyota Corolla (aspirado), do elogiado Volkswagen Jetta (turbo) e do atualizado Nissan Sentra (aspirado). A décima geração do Honda Civic poderia estar aqui, mas suas vendas começam somente no segundo semestre deste ano – e ninguém quer esperar os atrasados para começar a brincadeira.

O xerife desse segmento ainda é o Corolla – vale lembrar que a chegada do facelift do Toyota deve acontecer só em meados do próximo ano. Ele vendeu 26.475 unidades nesse ano, bem à frente do Nissan Sentra (3.768) e do VW Jetta (2.964). O melhor ano do Cruze foi 2012, quando vendeu 39.529 unidades. Agora, com a chegada da nova geração, a Chevrolet espera vender 2.200 carros/mês, o que daria 26.400 no ano (mais que Jetta, Sentra e até o Civic atual).

Por estar de roupa nova, o Cruze roubou as atenções no parque. Se as linhas de suas primeira geração foram idealizadas pelo time do centro de design da Chevrolet na Coreia do Sul, agora ele foi projetado nos Estados Unidos. Para essa brincadeira, pelo lado dos motores turbo 1.4, escolhemos o Cruze LTZ (R$ 96.990 na tabela e R$ 107.450 completo) e o Jetta Comfortline (R$ 93.990 na tabela e R$ 105.096 completo). Com motores 2.0 aspirados, selecionamos Corolla Altis (R$ 104.900) e Sentra SL (R$ 95.990).

Os dois modelos turbo são automáticos com troca sequencial e os dois últimos têm transmissão CVT (continuamente variável). O Sentra sempre foi imbatível do ponto de vista do custo-benefício. E ele continua preservando essa qualidade. Afinal, o sedã cobra menos que os rivais deste comparativo e ainda oferece desde a versão de entrada (2.0 S) transmissão automática e partida sem chave. No quesito poupar despesas, o sedã da Nissan já está no alto do tobogã, acenando para Cruze, Jetta e Corolla. Mas vamos continuar a brincadeira, analisando cinco pontos.

1. Motor e câmbio

Sedã médio tem que ter “motorzão”. Essa era a regra no passado. Contudo, esse pensamento foi esquecido em prol de melhor consumo e baixas emissões de poluentes.Nesse sentido, Chevrolet e Volks saíram na frente, com motores 1.4 turbo dotados de injeção direta e intercooler (resfriador de ar). Mas as semelhanças terminam por aí. Além de oferecer maior potência, o propulsor do Cruze leva vantagem por ser bicombustível, enquanto o do Jetta só beberica gasolina. São 150/153 cv (gasolina/etanol) no Cruze e 150 cv (g) no Jetta. Tanto o Chevrolet quanto o Volkswagen são equipados com câmbio automático de seis marchas, de funcionamento mais direto no VW.

No Cruze, as trocas manuais são feitas pela alavanca, enquanto o Jetta também permite fazê-las pelas borboletas junto ao volante. No time dos aspirados estão o Corolla e o Sentra. Os dois têm bloco 2.0 16V flex com duplo comando de válvulas, com variador de fases na admissão e no escape no Toyota; e só na admissão no Nissan. E o Sentra ainda oferece menos potência, com 140 cv (g/e) contra os 143/154 cv (g/e) do Corolla. O torque é semelhante nos dois sedãs, entretanto um pouco menor no Sentra ao ser abastecido com etanol. Tanto o Nissan quanto o Toyota utilizam câmbio CVT, mas o Corolla ganha nesse quesito por simular sete marchas.

2. Desempenho e consumo

São quatro modelos com propostas familiares, mas Cruze e Jetta entregam uma pegada esportiva e condução mais aguçada graças aos seus motores turbinados. Nem por isso Sentra e Corolla deixam de transmitir certo prazer de condução – o Corolla acelera com mais vigor comparado ao rival japonês. O desempenho do Jetta é o melhor deles. O sedã da Volks acelera de 0-100 km/h em 8,6 segundos, enquanto o Cruze faz em 9 segundos. Do lado dos aspirados, o Corolla cumpre a mesma prova em 9,6 segundos e o Sentra em 10,1 segundos. Do ponto de vista da eficiência, o Cruze é o único com sistema start-stop (desliga o motor em breves paradas para ajudar no consumo).

Assim como o Corolla e o Jetta, recebeu nota A na categoria e B na classificação geral do Inmetro. Considerando o consumo com gasolina na cidade, o Chevrolet é o vencedor com média 11,2 km/l, enquanto o Toyota faz 10,6 km/l e o Volks, 10,4 km/l. O pior resultado é do Sentra, com nota B na categoria e C na geral – seu consumo de gasolina na cidade é de 9,8 km/l. Na estrada e utilizando o combustível derivado do petróleo, o Cruze faz 14,0 km/l e o Jetta crava média de 13,8 km/l. O Corolla em uso rodoviário tem consumo de 12,6 km/l e o Sentra é um pouco melhor, com 12,7 km/l.

3. Segurança e conforto

Ter bom desempenho é importante, mas não é tudo na hora de fechar negócio. A segurança também é importantíssima. Afinal, ninguém anda no carrinho de bate-bate sem usar o cinto de segurança. E no trânsito o perigo é muito maior! Todos os sedãs ganharam cinco estrelas nos testes de colisão e trazem um interessante pacote de itens (apesar de o Corolla por não oferecer controle de estabilidade, um erro imperdoável em um sedã de mais de R$ 100.000). Ele compensa esse vacilo sendo o único deles equipado com airbag de joelho para o motorista.

Cruze e Sentra não só trazem esses controles eletrônicos, como são os mais recheados, contando ainda com alerta de colisão frontal e assistente de ponto-cego. A mais, o Sentra traz assistente que alerta sobre tráfego cruzado na traseira. O Cruze entrega de série as luzes diurnas (DRL) e opcionalmente farol alto adaptativo, assistente de permanência na faixa e indicador de distância do veículo à frente, que fazem parte de um pacote de R$ 10.460. O Jetta pode não oferecer esses dispositivos, mas é dotado da função cornering light (acende os faróis de neblina ao esterçar o volante para ajudar a iluminar a curva). Já o isofix para fixação de cadeirinhas infantis está presente em todos esses carros.

Verdade que os consumidores de sedã priorizam conforto, espaço interno e bom porta-malas. Aqui, ponto para o Cruze, cuja nova plataforma permitiu um aumento nas dimensões comparado ao modelo anterior: 6,2 cm a mais no comprimento, 1 cm na altura e 1,5 cm no entre-eixos. A cabine está mais espaçosa e com maior sensação de amplitude, principalmente para as pernas e os joelhos de quem viaja atrás. O novo entre-eixos do Cruze passou de 2,68 m no modelo anterior para 2,70 m – mesma medida do Sentra e do Corolla, enquanto o Jetta possui o menor, com 2,65 m.

Entretanto, o Toyota é quem tem menor túnel central, beneficiando o quinto ocupante. Já o Sentra oferece mais inclinação do encosto. E atrás apenas o Jetta possui saídas de ar-condicionado. O interior do Cruze não só cresceu, como também ficou mais requintado e faz bom uso de elementos cromados. Há áreas da cabine com materiais bem sensíveis ao toque, mas é uma pena que ainda haja os antiquados pinos nas portas. O Jetta é quem tem um acabamento mais macio na região superior do quadro de instrumentos. Os bancos do Cruze agradam pela densidade das espumas, mais macias que os do Jetta, do Corolla e do Sentra.

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Já os assentos do sedã da Volkswagen são mais firmes e transmitem um “que” de esportividade, com abas laterais mais pronunciadas ajudando a segurar melhor o corpo nas curvas. A cabine em duas cores do Cruze pode dividir opiniões, além de o couro claro sujar com facilidade. Mesmo problema do Corolla. Aliás, o Toyota peca pela estranha combinação de elementos na cabine, pois há peças pintadas de cinza e imitando fibra de carbono. Por sua vez, o Sentra pode se vangloriar de ser o único a ter ar-condicionado de duas zonas de série – um item indisponível tanto no Corolla quanto no Cruze e cobrado opcionalmente no Jetta, que faz parte do pacote Exclusive (R$ 6.781).

Por dentro, Sentra e Jetta são mais clássicos, com seus interiores escurecidos e poucos adornos. Um destaque do Nissan está no novo volante inspirado no do esportivo 370Z. Borboletas são encontradas no Jetta e no Corolla. No Cruze, agora há quatro botões atrás que servem para controlar o volume e as estações de rádio. Todos os modelos possuem bons ajustes da coluna de direção em altura e em profundidade. Contudo, a Nissan poderia ser mais cuidadosa nesse aspecto, pois, ao soltar a alavanca de regulagem, o volante do Sentra desaba no colo do motorista.

Um item inédito no segmento e uma exclusividade do Cruze é o carregamento do smartphone celular sem cabos (caso o aparelho ofereça a tecnologia por indução), disponível como opcional só na versão LTZ. O Cruze cresceu nas medidas, ficando mais confortável e espaçoso, porém, diminuiu no tamanho do porta-malas. Ele perdeu 10 litros em relação ao modelo antecessor, passando a 440 litros. Com isso, ele oferece a menor capacidade entre os sedãs avaliados: o Jetta tem 510 litros, o Corolla tem 470 e o Sentra tem 503. Embora a tampa de todos use o “pescoço de ganso”, o Volks é o único a ter a sustentação por amortecedores.

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4. Equipamentos e multimídia

Os quatro sedãs são recheados de série. As rodas do Cruze e do Sentra são de 17”, enquanto as do Corolla e do Jetta são de 16”. De série, só o Cruze oferece iluminação diurna e sensor de chuva. Por outro lado, o Sentra responde à altura ao trazer de fábrica faróis de xenônio e teto solar elétrico. Sensor de chuva e teto solar são opcionais no Jetta. Nele também é opcional o sensor crepuscular e os bancos de couro, de série nos demais. A comodidade dos ajustes elétricos do banco do motorista está no Sentra e no Corolla e é um extra no Cruze. Esse item não está disponível no Jetta Comfortline.

Em contrapartida, o Volkswagen traz quatro airbags desde a versão de entrada e sensores de estacionamento dianteiro e traseiro, não oferecidos nem no Corolla Altis nem no Sentra SL, mas disponíveis no Cruze LTZ. O sedã da Chevrolet ainda oferece o estacionamento automático na configuração LTZ.  Esse sistema estaciona o carro sozinho em vagas paralelas ou perpendiculares. A conectividade desses sedãs se faz presente nas centrais multimídia com telas sensíveis ao toque de 8” no Cruze, de 6,3” no Jetta, de 6,1” no Corolla e de 5” no Sentra.

As únicas que permitem o espelhamento do conteúdo do smartphone são as da Volks e da Chevrolet. A do Corolla tem TV digital, mas é a pior de operar por conta da interface confusa, dos gráficos antiquados e da demora de resposta aos comandos. O navegador vem integrado no Cruze (gráficos 3D), no Corolla e no Sentra (desde a configuração SV). No Jetta, ele é um opcional.  O Chevrolet também traz o serviço OnStar, que funciona como um assistente pessoal, permitindo ao motorista contatar uma central e conversar com um atendente para pedir informações sobre pontos de interesse, rotas, notícias e até horóscopo.

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5. Prazer ao dirigir

Alguns consumidores podem preferir se aventurar nas atrações mais radicais de um parque de diversões. Outros mais pacatos se contentam em andar nos brinquedos mais tranquilos. Se você procura diversão ao volante, Cruze e Jetta são duas ótimas opções. É inegável que o comportamento do Cruze mudou da água para o vinho com a vinda do novo motor 1.4 turbo substituindo o antecessor aspirado 1.8 de 140/144 cv. O Jetta também seguiu pelo mesmo caminho da eficiência ao trocar seu 2.0 aspirado pelo 1.4 turbo com injeção direta. O Chevrolet transmite boa dose de força desde os giros baixos, entretanto, o torque do Volkswagen é maior e entregue em menor faixa de rotações.

Isso juntamente ao seu peso ligeiramente mais baixo (são 1.298 kg contra 1.321 kg do Cruze, que é 100 kg mais leve que o antecessor) faz o Jetta transmitir respostas um pouco mais rápidas ao pedal do acelerador. A transmissão GF6 de terceira geração do Cruze tem bom funcionamento, porém às vezes se perde nas reduções ficando sem saber qual marcha engatar. Ao contrário do Chevrolet, a caixa do Volks trabalha de forma mais direta e o Jetta até transmite algumas pitadas de esportividade. Em ambos, o turbo lag (tempo para o turbo encher) está presente, mas é mais perceptível no Jetta, assim como o ruído causado pelo vento.

Diferente do temperamento mais dinâmico da dupla turbinada, o Corolla e o Sentra são mais apropriados para consumidores menos exigentes em relação ao desempenho. Eles tratam bem seus proprietários, com respostas mais progressivas do que emocionantes. Os dois sedãs trazem caixa continuamente variável CVT, uma transmissão que entrega muito conforto no trânsito por não oferecer trancos nas trocas, mas cobra seu preço quando queremos dirigir mais esportivamente. E nesse quesito o Sentra não acompanha o Corolla. Longe do Nissan ser ruim de dirigir, mas ele é menos ágil.

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Sua caixa não simula marchas, enquanto a do Corolla simula sete e ainda oferece opção de mudanças manuais pelas borboletas atrás do volante e maior freio motor. Todos trazem direção com assistência elétrica. A do Cruze é a que transmite maior leveza em baixa velocidade e a do Corolla é a mais pesada. Sentra e Jetta se saem melhor, com respostas mais diretas ao esterço. As suspensões do Cruze, do Jetta e do Corolla são mais macias, garantindo um bom conforto. No entanto, o conjunto do Jetta tem acerto mais firme em relação aos concorrentes.

No Volks, os ocupantes podem sentir mais as imperfeições do piso, mas ele copia melhor o piso e contorna as curvas com mais facilidade, mesmo com a melhora da rigidez torsional do Cruze. Afinal, o Jetta é o único sedã com suspensão multi-link na traseira e ainda traz bloqueio eletrônico do diferencial. Esse sistema funciona em conjunto com o controle eletrônico de estabilidade, melhorando a dinâmica do carro, aumentando a agilidade e diminuindo o subesterço (saída de frente). O resultado disso tudo é maior tração do carro, deixando o Jetta bem mais prazeroso de guiar, para quem gosta de andar rápido na estrada.

Conclusão

O novo Cruze venceu este comparativo por ter um projeto mais novo e conseguir melhor equilíbrio na entrega de conforto e desempenho. Ele nem se compara ao modelo passado em conectividade e rodar mais macio. Pesa contra o Chevrolet, entretanto, os itens de segurança extras cobrados à parte, alguns deles oferecidos de série no Sentra. O vice-campeão foi o Jetta, que tem o maior custo das peças (isso pode fazer diferença em seu bolso), mas compensa pela dirigibilidade e pelo desempenho de seu motor 1.4 TSI. O líder Corolla ficou em terceiro, por cobrar mais de R$ 100.000 nessa versão Altis e ainda assim deixar de entregar itens de segurança básicos nessa faixa de preço, como o controle de estabilidade.

Em último lugar ficou o Nissan por conta de seu motor mais fraco e pelo pior consumo. De cinco pontos possíveis, o Cruze conseguiu 4,0, o Jetta marcou 3,9, o Corolla fez 3,6 e o Sentra somou 3,5. Carro por carro, consideramos o Cruze ligeiramente superior ao Jetta. Mas uma olhada no quadro de estrelas, item por item, pode ser determinante para um consumidor que tenha dúvidas pontuais num comparativo que não tem nada de brincadeira. O que Jetta dá em desempenho, por exemplo, o que o Corolla entrega em equipamentos e multimídia. Agora é com você!

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(Agradecimentos: Parque Hopi Hari – Rodovia dos Bandeirantes, km 72, Vinhedo, SP / Tel.: (11) 4040-4926)