O carro a hidrogênio chegou. E nós já aceleramos

Imagine um futuro em que os carros sejam abastecidos com um combustível totalmente limpo. Uma época em que os carros não farão absolutamente nenhum ruído e não emitirão um grama sequer de poluente pelo escape – na verdade nem terão escape, pois só liberarão água no ambiente. E o melhor de tudo, os veículos desse futuro incrível não causarão, como no caso dos carros elétricos atuais, aquela ansiedade de que ficar sem eletricidade na próxima esquina.

Bem, pelo menos no Japão esse futuro já começou. O Toyota Mirai, primeiro carro de série com célula de combustível, totalmente desenvolvido para usar apenas hidrogênio como combustível,  começou a ser vendido lá. E nem é preciso um contrato de leasing especial, como costumava acontecer com modelos como esse, revolucionários. Basta assinar um cheque, como se faz para comprar qualquer carro. O preço equivale a R$ 135.000, já com um generoso incentivo do governo japonês.


De qualquer forma, comparado ao mínimo de U$ 1 milhão que custava um protótipo movido a célula de combustível nos anos 1990, já é um belo progresso. E a Toyota já está bem à frente das previsões para a difusão em massa dos carros a hidrogênio – sejam as mais otimistas, que falavam em 2017, ou as mais realistas, que os aguardavam para 2020.

Neste campo, embora muitas perguntas tenham sido respondidas, outros ainda estão por ser. Até poucos anos atrás, ninguém sabia como armazenar e distribuir hidrogênio de forma segura, como reduzir o tempo de reabastecimento  (em 2005, se levava mais de dez minutos para encher um tanque; hoje são apenas cinco) e nem como chegar a um preço final menos absurdo. As questões sobre a mesa, hoje, são outras: sobre como produzir o hidrogênio (que não existe livre na natureza), como recuperar os investimentos necessários para construir a rede de distribuição e, acima de tudo, como chegar ao compromisso necessário para uma mudança de mentalidade da opinião pública, evidentemente ainda satisfeita, em sua maior parte, com os motores tradicionais a combustão.

Foi exatamente sobre esses que montadoras e governos começaram a trabalhar, juntos, a fim de antecipar a era do hidrogênio, estimulados pela necessidade de combater o aquecimento global. No Japão, as leis vão obrigar os fabricantes a fornecer, até 2018, pelo menos 16% de seus modelos com emissão zero de poluentes, ou bem perto de zero. De qualquer forma,  por convicção ou por obrigação, as coisas estão andando.

Mas vamos falar do carro. O nome Mirai, em japonês, significa “futuro”. Trata-se da fase final de uma revolução que a própria marca iniciou quando lançou o Prius (o modelo híbrido gasolina/eletricidade já vendido no Brasil). Como ele nasceu? Os designers da marca dizem que se inspiraram na fusão entre o hidrogênio e o oxigênio, os dois elementos que se combinam para formar a água, justamente a única substância que é emitida pela célula de combustível. O resultado é um tanto anguloso, original e futurista.

Uma vez dentro do Mirai, vem a pergunta: por que o futuro não pode ser um pouco mais sóbrio? Felizmente o Mirai fica bem mais agradável depois que começamos a dirigi-lo. Com potência de 155 cv transmitida às rodas  por uma transmissão continuamente variável (CVT), o sedã acelera de 0 a 100 km/h em pouco menos de 10 segundos, e mostra uma progressividade bastante razoável. E a Toyota, de resto, pode contar com seus mais de 17 anos de experiência no uso de baterias: para cortar custos, a Mirai tem elementos compartilhados com o Prius. Seus dois tanques de hidrogênio devem, em teoria, fornecer 650 quilômetros de autonomia.

A aceleração é imediata e fluida, e seus consideráveis 1.850 kg são sentidos apenas durante as frenagens e em curvas de alta velocidade. O modelo tem um comportamento dinâmico sincero e uma direção bastante direta, mas as respostas melhorariam bastante se tivesse pneus com maior aderência (em vez dos escolhidos, com baixa resistência ao rolamento). Em suma, o Mirai é certamente um grande passo em direção à era dos carros a hidrogênio. Seu sucesso, no entanto, vai depender muito do desenvolvimento da infra-estrutura necessária para o uso desse combustível revolucionário – e esse é exatamente o ponto que torna sua chegada ao Brasil um sonho ainda bem distante…

Confira o vídeo sobre o funcionamento do carro (em inglês):