O contador de histórias


BIRD CLEMENTE

“Por mim, podiam tirar todas as asas dos F-1. Carro não tem asa, quem tem asa é avião”

É difícil associar o arrojado piloto Bird Clemente, um dos principais corredores brasileiros entre as décadas de 50 e 70, ao tranquilo anfitrião que nos recebe em sua espaçosa casa na Granja Viana, em São Paulo. Mas não se engane: este senhor, de 72 anos, não tem nada de pacato.

O que ele gosta mesmo – e sempre gostou – é de velocidade. Por toda a residência é possível ver lembranças de seu passado vitorioso. Fotos, quadros com pinturas de seus carros e troféus fazem parte da decoração.

A carreira de Bird Clemente começou no final da década de 50. Sua primeira prova mais séria foi a Mil Milhas de Interlagos em 1958, em que dividiu o volante de um Fiat com Luís Pereira Bueno e com o amigo João Batista Carneiro.

Nessa época, o automobilismo brasileiro ainda engatinhava, porém o público era fiel e comparecia a todas as provas, principalmente as de longa duração.

Pouco tempo depois de começar a correr, em 1962, quando foi criada a equipe oficial da Vemag, Bird Clemente foi um dos escolhidos para defender a bandeira da marca nas pistas. O time era um dos mais bem estruturados da época e, por isso, tinha os melhores pilotos. Bird era um dos principais. Foi o primeiro competidor do Brasil a reivindicar salário e, com isso, se tornou o primeiro piloto profissional do País, estendendo o benefício para seus companheiros de pista.

Acima, o teste de durabilidade de um Gordini promovido pela Willys, do qual Bird participou. Na sequência, o Opala com o qual o piloto bateu o recorde brasileiro de velocidade, em 197

Acima, o Willys Interlagos (no autódromo que lhe deu nome) vencedor de corridas internacionais, fato ainda inédito para um modelo brasileiro. Note como o carro fazia a curva de lado, o que era um padrão para a época. No alto à direita, Bird na Fórmula Jr.

Quando Luiz Antônio Greco assumiu a chefia da equipe Willys, em 1963, levou Bird para a equipe. A ideia da marca era investir pesado nas corridas e precisava de um time de pilotos à altura dos investimentos. Junto com Bird, corriam feras como Luiz Pereira Bueno, José Carlos Pace, Wilson Fittipaldi, Carol Figueiredo, Chico Lameirão e, mais tarde, Emerson Fittipaldi, que entrou como piloto reserva.

A escuderia usava os consagrados Renault Alphine, montados pela Willys no Brasil com o nome de Interlagos. “A Willys foi uma grande academia de pilotos, aprendemos muito com os Alphines”, conta Bird. A bordo do carro, ele obteve resultados incríveis. Um dos mais marcantes foi nas 24 horas do Rio de Janeiro, em 1967, onde, debaixo de chuva, o piloto desbancou equipes estrangeiras que contavam com carros muito mais potentes como Porsche e Lotus. “Foi uma corrida que ganhamos na raça”, orgulha-se o veterano, que também destaca uma vitória no Uruguai, primeira vez em que um carro fabricado no Brasil ganhou uma prova no Exterior. “Demos um show!”, relembra.

Segundo ele, naquela época, o resultado das corridas estava muito mais nas mãos do piloto do que do equipamento. “No meu carro tinha volante, câmbio, alguns relógios e o banco. O resto era comigo e com Deus”, conta. Como a entrevista foi na segunda-feira depois do GP de Barcelona de F-1, a monotonia da prova não escapou às críticas do piloto. “A tecnologia tirou a emoção. Esse negócio de pressão aerodinâmica não permite ultrapassagem. Por mim, podiam tirar todas as asas. Carro não tem asa, quem tem asa é avião”, brinca e palpita o veterano.

Bird tem uma biografia na qual conta sua trajetória e, em paralelo, o cenário do automobilismo da época, com seus principais personagens e acontecimentos. “Não sou jornalista, muito menos historiador, sou um verdadeiro contador de histórias.”

Acima, um anúncio da Willys, veiculado em jornais e revistas nos anos 60, exaltando sua equipe de pilotos, da qual Clemente (à dir. e acima) fazia parte

 

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