O dia em que “matei” Clay Regazzoni

“Eu vinha atrás do Clay e freei forte no Queen’s Hairpin, mas ele não reduziu, pois seu pedal de feio quebrou”

1914

Quando se trata de circuitos de rua, o de Long Beach, EUA, era muito bom – porém mais fácil que Mônaco e Montjuich (Barcelona). Tinha a pista larga e áreas de escape maiores, então perdoava erros, enquanto os outros puniam mesmo as mínimas falhas. Mas, como em Mônaco, você tinha que ser preciso e agressivo ao mesmo tempo e, por isso, bons pilotos brilhavam. Fiz o primeiro ponto da Copersucar-Fittipaldi em Long Beach, em 1976, e foi lá meu último pódio na F1, em 1980.

Porém lembro desse GP de 1980 por outro motivo – e tenho calafrios ao lembrar dele até hoje. Na volta 51 eu estava atrás de Clay Regazzoni, que já tinha 40 anos e havia sido dispensado pela Ferrari e pela Williams – equipes para as quais venceu muitos GPs – e estava pilotando na pequena Ensign.

Freei forte para o Queen’s Hairpin, a curva no fim da super-rápida Shoreline Drive, mas Clay não reduziu, pois seu pedal de freio quebrou. Quando entrei na curva, vi seu Ensign indo contra a barreira de concreto. Mesmo virando à direita, olhei para a esquerda, aterrorizado. Contornei a curva e olhei para a direita novamente, para ver o ápex da curva – e foi quando ouvi um fortíssimo estouro. Mesmo com balaclava à prova de fogo e capacete com isolamento, mesmo com o Cosworth V8 urrando nas minhas costas, pude ouvir o nauseante som do impacto da Ensign contra o concreto. Pensando no som agora, a melhor descrição seria “explosão”. Nunca esquecerei.

Tive certeza de que Clay havia morrido – e, mesmo assim segui com o pé na tábua, sentindo uma náusea, um embrulho no estômago. Eu o conheci e corri muito com ele na F1. Estreei na categoria em 1970, como ele. Venci meu quarto circuito quando ele venceu o quinto. Brigamos pelo título de 1974, ele na Ferrari e eu na McLaren, até a batalha final em Watkins Glen. E agora essa. Lembro de como me senti, solitário no cockpit, certo de que meu antigo rival havia falecido.

Mesmo assim, continuei correndo o mais rápido que pude, pois era o que fazíamos na época, mesmo diante da tragédia. E terminei em terceiro. Quando saí do carro, soube que Clay não havia morrido, porém estava seriamente ferido. Depois soube que nunca mais poderia andar.

Mas ele correria de novo, pois era guerreiro. Foi pioneiro em correr profissionalmente em carros adaptados para deficientes, em eventos como o Rally Dakar e as 12 Horas de Sebring. Em 1994, aos 55 anos, correu com um Toyota em Long Beach, o mesmo circuito no qual 16 anos antes havia atingido o muro a 240 km/h. Ele morreu em 2006, dirigindo um Chrysler adaptado em uma estrada próxima a Parma, na Itália. Clay era assim: acelerava fundo até o fim, não importando as consequências. Deus o abençoe.