O espetáculo de Le Mans

A corrida 24 Horas de Le Mans está no seleto grupo das grandes provas de automobilismo do mundo. A importância e a credibilidade de Le Mans podem ser conferidas pelo número de jornalistas credenciados para o evento. Este ano passou de 1.300 profissionais. Só de tevê foram 133 emissoras que transmitiram informações para 25 países, para mais de 228 milhões de pessoas. MOTOR SHOW foi a única revista brasileira de automóveis que acompanhou a última edição da competição e mostra toda a movimentação milionária e impressionante em torno de uma das provas mais difíceis e tradicionais do planeta.

São 77 edições de uma corrida que começou em 1923, num circuito com mais de 17 quilômetros. Depois de 14 mudanças, a prova ficou com “apenas” 13.629 m, três vezes maior do que a média dos circuitos de F-1. De lá para cá, a prova foi interrompida duas vezes. Em 1936, por causa de uma greve geral que afetou a indústria automobilística, e no período da Segunda Guerra Mundial. Talvez isso explique por que mais de 230 mil pessoas pagam entre 10 de 460 euros (R$ 30 e R$ 1.380) por um ingresso.

 


Chegada ao evento, os carros posicionados para a largada, a movimentação do público e um grupo de modelos acenando para a arquibancada

 

 

 

 

 

A vista da roda-gigante do parque de diversões montado dentro do complexo Le Mans. Acima, o trabalho dos jornalistas. Este ano, foram 1.300 credenciados

A tranquila cidade francesa de Le Mans, a 200 quilômetros de Paris, possui menos de 150 mil habitantes, mas, na época da corrida, se transforma.

É a maior arrecadação que a cidade tem em um único final de semana. Os ingleses atravessam o Canal da Mancha em bando, com suas barracas ou motor homes. São a segunda nacionalidade que mais compra ingressos. É comum vê-los acampados, ao lado da pista, acompanhando a prova pela tevê. No autódromo, só entram para ver a largada, a chegada e para se divertir à noite, em um parque instalado dentro do complexo. Nas outras 22 horas, a competição é outra: descobrir quem entorna mais cerveja.

Bonito, limpo e bem sinalizado, o centro da cidade de Le Mans recebe, antes da corrida, um desfile de pilotos. A gente fica na duvida se é um desfile de carros antigos com alguns pilotos ou se é um desfile dos pilotos em cima de carros antigos. Seja como for, a fórmula agrada. Sob um calor de quase 30 graus, os pilotos curtem a aproximação com o público. Descem dos carros e distribuem autógrafos e bonés. O percurso é pequeno, cerca de três quilômetros, mas as ruas ficam completamente tomadas pelo público. As sacadas e os telhados dos prédios viram camarotes. A polícia estima que mais de 150 mil pessoas acompanhem de perto os desfiles. É como se todos os moradores da cidade deixassem suas casas para curtir a festa.

 

O desfile de carros que antecede a prova faz a cidade parar. São 150 mil pessoas amontoadas nas ruas. As sacadas viram camarotes e os pilotos se aproximam do público, distribuem autógrafos e bonés. À direita, personagens estranhos que circulam pelo evento, uma imagem da corrida ao entardecer e, no destaque, o Peugeot vencedor

 

 

 

 

 

À esquerda, um dos vários grupos de ingleses que acampam ao lado da pista. Abaixo, uma das barraquinhas com souvenirs das equipes que disputam 24 Horas de Le Mans

 

 

A Audi criou um programa especialmente para seus convidados vips, cerca de mil pessoas trazidas de todas as partes do mundo. Como não existe hotel na cidade que comporte tanta gente, a marca construiu um hotel a 500 m do circuito. Ergueu divisórias, colocou quartos, mesa de trabalho e banheiros.

Mesmo sendo ao lado da pista, dezenas de carros ficavam à disposição dos convidados para que eles se deslocassem para qualquer um dos cinco hospitality centers (espaços de convivência) que a marca montou dentro do circuito. Cada um deles tinha sua particularidade. Seja pela decoração, pelo tipo de comida, seja pelas atrações, que iam de show de música a simulador de corrida. Isso sem contar a visão privilegiada da pista. A Audi montou ainda um programa de tevê transmitido ao vivo para todos os HCs dando as últimas informações e fazendo um resumo da prova. Afinal, em 24 horas, muita coisa acontece e não dá para acompanhar tudo. Ainda mais porque a montadora alemã criou diversas atividades extracorrida.

 

No hotel criado pela Audi dentro do centro de exposições da cidade, a banheira vertical era um mimo para os convidados

 

Os convidados podiam, por exemplo, fazer um sobrevôo de helicóptero pelo circuito ou dar uma volta a bordo de um R8 na pista do aeroporto da cidade. Para terminar a aula de marketing, a Audi ainda conseguiu emplacar junto à organização da prova o direito de ser a marca oficial de Le Mans e todos os carros da organização da prova eram da Audi. A montadora não divulga os gastos, mas estima-se que 30% de toda a verba anual gasta pela marca com esporte a motor seja investido em Le Mans.

Só que marketing não ganha corrida e há dois anos especialistas apontavam que os carros da Peugeot tinham chegado ao estágio dos Audi e a vitória francesa seria uma questão de tempo. Oito vezes campeã em Le Mans com apenas dez participações, a Audi se transformou na marca a ser batida e a Peugeot se credenciou para ficar na cola dos alemães.

 

 

 

 

 

Assim, Audi e Peugeot protagonizaram, mais uma vez, um grande duelo. Logo nos treinos para a classificação oficial, a Peugeot já mostrava que os prognósticos estavam certos. Fez a pole com folga e levou também o terceiro lugar, deixando para o R15 a incômoda segunda colocação, espremido por dois Peugeot. Com menos de uma volta, a equipe francesa já tinha tirado também o segundo lugar da Audi. A marca alemã apostou mais uma vez na chuva. Ela tem os pilotos mais experientes e o carro mais acertado para esse tipo de situação. Só que, neste ano, a chuva não veio. Com um olho na pista e o outro no céu, os franceses puderam correr tranquilos. O único momenmomento de tensão foi quando o carro da equipe principal da Peugeot, que estava liderando, teve problemas e ficou quase dez minutos nos boxes. A equipe número dois assumiu a liderança neste momento. A partir daí, foi só administrar a prova. Dos três carros da Audi, apenas um subiu ao pódio.

A corrida de Le Mans é dividida em quatro categorias e, neste ano, 55 equipes foram selecionadas para estar no grid de largada. Dois brasileiros disputaram a prova. Bruno Senna, pela Courage Oreca-aim, e Jaime Melo, que correu pela escuderia Risi Competizione. Pilotando uma Ferrari F430 GT, ele e os companheiros, Mika Salo e Pierre Kaffer, venceram na categoria GT2. Mas a festa mesmo foi da Peugeot que venceu, convenceu e ainda fez dobradinha.

 

o simulador que a Audi colocou em um de seus espaços vips (um deles na foto acima). Marca oficial do evento, ainda cedeu os carros para a organização

 

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