O preço da evolução

Roberto Assunção

Em um deles, porém, há de se pagar caro pelas melhorias (e pelos opcionais). Será que vale a pena?

Esse comparativo entre as recém-lançadas novas gerações dos mais vendidos aventureiros urbanos do País começa com uma surpresa: os preços. Isso porque, se o Sandero Stepway evoluiu sem cobrar quase nada por isso, o CrossFox, que já tinha valor maior, ficou mais caro. Assim, enquanto o Renault parte de R$ 48.650, o Volkswagen tem preço inicial de R$ 57.990 – ou quase 20% a mais que o rival. Uma diferença nada desprezível. Resta ver se, nos carros, essa disparidade de valores se justifica.

A primeira questão que surge é: se há um preço a se pagar pela evolução, por que só a Volks o cobrou? Há de se admitir que a transformação do CrossFox foi maior, incluindo importantes atualizações mecânicas, enquanto seu rival basicamente ganhou, além do visual renovado, uma recalibração do sistema de assistência à direção e melhorias substanciais no pacote de equipamentos e no acabamento.

Vale lembrar que o Volks tem a opção automatizada I-Motion, com a qual parte de R$ 61.180, e o Stepway tem a novíssima Easy’R, também automatizada, que faz seu preço inicial subir para R$ 52.210 – mas dá “de brinde” bancos revestidos de couro. São opções interessantes para quem usa o carro principalmente na cidade. Mas vamos nos ater, aqui, às versões manuais – que, no mais, são idênticas às automatizadas. 

Voltando aos preços, é bom frisar que alguns itens de série do Stepway “básico” são opcionais no CrossFox – como as rodas aro 16, o navegador por GPS e o piloto automático. Para ter os dois primeiros itens, o valor do Volks sobe já para R$ 62.472 (ampliando a distância entre eles para quase R$ 14.000). Para adicionar o piloto automático, é preciso levar também retrovisor eletrocrômico, sensores de chuvas e faróis e luzes de iluminação de curvas, pagando mais R$ 1.924 pelo pacote. Outros itens, como câmera de ré e arcondicionado automático, o CrossFox não tem – mas, por outro lado, tem equipamentos exclusivos, como o controle de tração (de série), além de vários opcionais (confira tabela), como controle de estabilidade e teto solar. Somados todos, porém, o fazem passar de R$ 70.000. Fica mais caro que um Golf 1.4 turbo, que traz mais espaço, sete airbags, Isofix e muito mais segurança. Inviável. 

Dentro da cabine, apesar das notáveis evoluções no acabamento do Stepway, o CrossFox ainda é bastante superior. Encaixes, materiais, design… há mais refinamento nele, que ainda conta com uma posição de dirigir bem melhor, graças ao ajuste de profundidade do volante (e apesar dos bancos que jogam o corpo um pouco para a frente). E isso o rival combate não só com equipamentos, mas, principalmente, com espaço interno. Apesar de o Renault ser apenas 5 cm mais longo, 18,5 cm do comprimento do CrossFox são do estepe na traseira – um espaço não utilizável (e que torna mais trabalhoso abrir e fechar o porta-malas). Além disso, o Stepway tem 11 cm a mais no entre-eixos e 8 cm a mais na largura, e isso se reflete em um tanto a mais de espaço, principalmente no banco traseiro. E seu bagageiro também é maior, com bons 320 litros sempre disponíveis,  contra 280 do rival – cujo espaço pode ser aumentado com o ajuste do banco traseiro corrediço, chegando a 366 litros com ele todo para a frente, mas quase o inutilizando para o uso de passageiros.

Se até agora o Sandero mostrou algumas vantagens, é ao volante que o CrossFox de destaca – e bastante – em relacão ao Stepway. Uma atualização mecânica era necessária há tempos, já que o seu 1.6 8V (104 cv e 15,6 kgfm) estava ultrapassado. Agora ele ganhou o novo motor 1.6 16V com comando variável, 120 cv e 16,8 kgfm. Elástico, responde bem desde baixas rotações e exige poucas trocas de marcha. Combinado ao também novo câmbio manual de seis marchas, garante consumo reduzido, principalmente no uso rodoviário. Para se ter uma ideia, enquanto a 120 km/h em sexta esse motor gira a 2.750 rpm, garantindo economia, silêncio e conforto, na mesma velocidade o conta-giros do Stepway marca 3.750 rpm, com o barulho do motor invadindo a cabine. E não há sexta marcha. 

Apesar de as marcas não informarem o consumo dos carros, nessa velocidade constante, durante a avaliação, o CrossFox registrou 10,9 km/l e, o Stepway, 9,5 km/l (ambos com etanol). Já o motor do Renault é como o aposentado pelo Volks, com números quase iguais (106 cv e 15,5 kgfm) – ou seja, também precisava de atualização. Com 8V, garante boas saídas, mas, além de girar mais alto na estrada, não tem elasticidade, exigindo trocas de marcha mais constantes. Assim, o desempenho do CrossFox é superior, com retomadas e acelerações mais vigorosas (e 0,9 segundo mais rápido no 0-100 km/h). O câmbio do Volks também é muito melhor que o do Renault: além da marcha extra, tem curso curto e engates muito precisos. Talvez seja a melhor caixa manual do mercado.

Na direção, outra vantagem do Volkswagen. A assistência elétrica, novidade, poderia atuar menos na estrada, mas, na cidade e para manobras, é perfeita. Já o Renault tem ajuda hidráulica, mais ultrapassada. O sistema foi recalibrado, mas a direção ainda é pesada. No uso urbano, fi ca um pouco cansativo – por outro lado, dá uma sensação de mais robustez, o que combina com a proposta aventureira. Falando em robustez, as suspensões do Stepway reclamam menos em buracos e transmitem menor ruído: ponto positivo de um carro destinado a encarar estradinhas de terra de vez em quando e lombadas malfeitas, buracos e valetas no cotidiano.  

Depois da compra, os dois têm a mesma garantia – três anos – e seguros similares. Já as revisões dos primeiros 30.000 quilômetros são mais baratas no caso do Volks, mas precisam ser feitas semestralmente, e não anualmente como no rival. Assim, quem roda pouco (menos de 20.000 quilômetros/ano) acaba gastando menos com o Stepway. Nos preços das peças, o pacote MOTOR SHOW dá vantagem para o Renault. São diferenças muito pequenas, e não é o serviço pós-venda, portanto, que vai decidir a compra.

A conclusão acaba sendo que o CrossFox cobrou caro demais por sua evolução. Em nosso veredicto, na página ao lado, ele até ganhou mais estrelas – e isso porque de fato é, em muitos pontos, um carro superior, principalmente quando se fala em prazer ao volante. Mas não nos pareceu ser R$ 10.000 melhor – a decisão é sua. Se você dirige principalmente na estrada, o CrossFox pode até ser uma escolha mais atraente. Mas, na faixa de R$ 60.000, o mercado, e até a própria Volks, tem outras opções melhores. Entre esses dois, fique com o Sandero. Não por acaso, ele é o mais vendido da categoria. 

 

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