O que os olhos não veem o motorista sente

Roberto Assunção

Em 2004, quando o Logan surgiu na Europa com a marca Dacia, muitos torceram o nariz. Sua fórmula de baixo custo usava muitas chapas planas na carroceria – mais baratas, mas que não ajudavam na beleza. No entanto, isso não era um problema, já que o sedã, pensado e projetado para a Romênia e outros mercados do Leste Europeu, tinha como prioridades preço e espaço interno. Em 2005, porém, a Renault (dona da Dacia) passou a importá-lo para a Europa Ocidental, mercado teoricamente bem mais exigente. Surpreendentemente, foi um sucesso, e sua receita ganhou o mundo. No Brasil, recebeu a marca Renault, e de sua base surgiram o Sandero e o Duster, outros produtos de sucesso.


Seis anos depois, a Toyota lançou na Índia o Etios. Pensado e projetado para Índia e Brasil, seguiu tão bem a fórmula de baixo custo do Logan que, até visualmente, ficou parecido com ele. Mas a receita inevitavelmente resultaria em carros feios? O novo Logan mostrou que não: mantendo as qualidades e o baixo custo, tem desenho bem mais agradável.

Mas só a beleza importa? O consumidor europeu mostrou que não, mas a importância que se dá para o design varia conforme o mercado – e o brasileiro é dos mais ligados nisso. Ainda é cedo para avaliar o exato impacto da transformação visual do Logan nas vendas, mas, nesse embate entre um carro mais feio e outro mais bonito, é importante lembrar que um carro é muito mais que design. O que os olhos não veem o motorista sente.

Similares em conceito, medidas e mecânica, Logan e Etios têm preços próximos. O Renault, com o motor 1.6, parte de R$ 40.000, o Toyota, só 1.5, de R$ 39.790. As versões avaliadas foram as topo de linha. O Logan Dynamique com pintura especial e Techno Pack Plus (sistema multimídia/GPS, sensor de estacionamento e ar-condicionado automático) sai por R$ 45.190. Já o Etios XLS custa R$ 46.290 (na tabela de equipamentos abaixo, comparamos as configurações na casa dos R$ 43.000: Logan Dynamique sem opcionais e Etios XS). Igualados os valores versão a versão, o Logan é sempre mais barato e mais equipado. O rival, vale destacar, nunca tem computador de bordo, retrovisores elétricos, ajuste de altura do banco do motorista, som com bluetooth e nem mesmo alto-falantes na parte traseira da cabine. Falando em preços e equipamentos, portanto, a vantagem claramente é do Logan (o sistema multimídia/ GPS com nota e dicas de consumo é um opcional imperdível).

Mais bonito e mais equipado, o Logan continua na frente quando se olha para o interior. Em espaço, tanto dentro da cabine quanto no porta-malas, ambos são generosos: acomodam mais de 500 litros de bagagem e levam cinco adultos sem problemas, garantindo ainda ótimo espaço para as pernas de quem viaja no banco traseiro. No acabamento, o Logan tampouco é superior ao Etios – que ganhou uma bela melhoria nos materiais na linha 2014, depois de duramente criticado, e ainda leva vantagem por ter revestimento de tecido nas portas e encaixes mais caprichados. O que põe o Logan à frente do Etios é, principalmente, o painel de instrumentos: além de ficar no lugar certo – à frente do motorista, e não no centro da cabine –, tem indicador de troca de marchas, leitura mais fácil e um conjunto mais harmônico.

Por causa de todas essas vantagens que o Logan leva até agora, a Toyota criou uma regra (não escrita) em suas concessionárias: “Jamais deixe um cliente sair sem dirigir o Etios”. Sábia decisão, pois é ao volante que ele vira o jogo. E “ao volante” começa pela posição de dirigir – apesar de o Etios, diferentemente do rival, não ter ajuste de altura do banco do motorista, nele é mais fácil encontrar uma boa posição do que no Logan, cujo volante tem sempre uma inclinação meio incômoda (e ambos contam com ajuste só de altura da coluna de direção).

Em movimento, a vantagem do Etios se amplia: apesar de menos potente, é mais leve, e por isso tem relação peso/potência quase idêntica à do Logan (cerca de 10 kg/cv). Mas o motor do Etios prioriza o torque, é mais elástico e exige menos trocas de marcha – e mais confortáveis, pois o câmbio do japonês tem engates mais  curtos, suaves e precisos. Já o consumo do Logan 1.6 não é divulgado, enquanto o do Etios Sedan, com nota A do Inmetro, é o melhor da categoria – e um dos melhores do Brasil. Para se ter uma ideia, o Etios 1.5 é mais econômico até que o Logan 1.0. Na prática, a 90 km/h na estrada, atinge facilmente marcas entre 17 e 18 km/l.

Para completar, o Etios tem direção elétrica, contra a hidráulica do Logan. Além de muito mais leve nas manobras, tem peso correto na estrada – a do Renault ganhou assistência variável, mas, ao mesmo tempo em que continua pesada para manobras, ficou “mole” na estrada. Consideradas essas características, o Etios é mais fácil e prazeroso de guiar.

No pós-venda, a Renault sempre frisou a baixa manutenção do Logan, mas a Toyota conseguiu ir além: nos primeiros 30.000 quilômetros, as revisões são quase 32% mais baratas (leia tabela ao lado). Em 60.000 km, a diferença nas revisões obrigatórias é ainda maior: são R$ 2.596 para manter o Logan, contra R$ 1.710 para não perder a garantia do Toyota (ambas de três anos).

No fim das contas, o Logan ganha em design externo e interno – e essa é uma questão de gosto –, leva enorme vantagem nos equipamentos e pequena vantagem no preço. Já o Etios é mais gostoso de dirigir, graças ao conjunto mecânico bem afinado, tem manutenção mais barata e segurança garantida pelas quatro estrelas obtidas no crash test (o Logan ainda não foi avaliado). De olhos fechados, no que o motorista sente – ao volante e no bolso – o Etios 1.5 é melhor compra do que o Logan 1.6. Mas obriga a abrir mão de muitos equipamentos de conveniência e conforto.

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