O tira-teima das picapinhas

Roberto Assunção

Compare as cabines estendidas.


Houve um tempo em que a Saveiro, da Volkswagen, foi líder no segmento de picapes pequenas. Isso nos anos 80 e 90. Nem mesmo a chegada da Strada atrapalhou seu reinado. Quando a Fiat lançou uma versão com cabine estendida, porém, a Strada assumiu a liderança. A Volks tentou reagir e também fez uma Saveiro com cabine estendida, mas a Fiat trouxe em seguida a novidade da cabine dupla no segmento das picapinhas e não perdeu mais a liderança. Pelo contrário. Conseguiu a proeza de ser o carro mais vendido do Brasil em março, superando até o Volkswagen Gol.

Mas a Volkswagen não desistiu da briga. A Saveiro Cross acaba de ganhar o novo motor 1.6 16V da família EA 211. E foi além: incluiu muita tecnologia eletrônica para tentar deixar a Saveiro Cross superior à líder em vendas. Como só a versão Cross da Saveiro ganhou o novo motor e sua única con guração é cabine estendida, chamamos a Strada Adventure CE para esse tira-teima. A picapinha da Volkswagen custa R$ 51.890 e tem apenas três opcionais: bancos de couro (R$ 313), volante multifuncional com sistema de áudio multimídia (R$ 1.417) e pintura especial (R$ 1.353). Completa, a Saveiro Cross sai por R$ 54.973. A picape da Fiat tem preço o cial de R$ 51.950 – uma diferença de R$ 60 a mais que a desa ante. Sua oferta de opcionais, entretanto, é bem maior e mais complexa de montar. Completíssima, atinge R$ 62.836. Mas, considerando só os equipamentos da Saveiro Cross completa, o comprador de uma Strada Adventure gastaria com sistema locker (R$ 1.666), volante multifuncional com sistema de áudio (R$ 2.201), capota marítima (783) e pintura metálica (R$ 1.116). O preço da Strada subiria para R$ 57.716, o que daria uma vantagem de R$ 2.743 para a Saveiro.

Por que uma diferença de apenas R$ 60 pulou para R$ 2.743? Simples: a Saveiro Cross agora já sai da fábrica com bloqueio de diferencial automático. Na Strada, o sistema Locker, para além de ser um opcional, só é acionado com o carro parado – e só funciona em linha reta até 40 km/h. Na Saveiro, não. Assim, a picape da Volks agora é capaz de vencer terrenos difíceis sem “pedir permissão” ao motorista.  Tem mais: a Saveiro Cross 2015 não só encara pisos escorregadios com mais determinação, como também freia melhor em terrenos difíceis (seu ABS agora tem função off-road e assistente de frenagem). Outras boasnovas são o controle eletrônico de estabilidade, o controle de tração e o assistente de partida em subida – todos itens inéditos na categoria. 

Quando o assunto é potência, a Strada ainda ruge mais alto. Seu motor E-torQ 1.8 16V ex entrega 130/132 cv de potência (gasolina/ etanol) e 18,4/18,9 kgfm de torque. O desempenho é bom para um veículo de 1.253 quilos e possivelmente conseguiria nota A (selo verde) no programa de consumo do Inmetro, se fosse submetida a esse teste, pois esta é a avaliação do Palio Adventure, que usa o mesmo motor e tem apenas 47 quilos a menos que a Strada. A Saveiro Cross com o antigo motor 8V também tinha nota A e melhores números de consumo do que a rival – e a e ciência do novo motor 16V seguramente será melhor. O novo propulsor conta com sistema de válvulas variável na admissão. A vela de ignição foi colocada em posição central (entre as válvulas de admissão e de escape) para obter melhor queima da mistura arcombustível. Esse 16V tem o bloco e o cabeçote feitos em alumínio e pesa 15 quilos a menos que o velho motor de ferro. Também houve melhora nas bielas, no virabrequim e no coletor de escape, que agora está integrado ao cabeçote. O tanquinho de gasolina para partida a frio foi eliminado. 

Mais potente e econômico, esse novo motor 1.6 16V ex fornece 110/120 cv de potência e 15,8/16,8 kgfm de torque. Portanto, a Saveiro Cross é menos potente do que a Strada Adventure, mas pesa apenas 1.120 quilos (uma diferença nada desprezível de 133 quilos). Por causa disso, mesmo com um motor menor, a Saveiro tem melhores números de aceleração. As duas picapes, com etanol ou gasolina,
vão de 0-100 km/h entre 10 segundos e 10,6 segundos, marcas que não fazem diferença no uso diário. O que faz muita diferença é a ergonomia. O sistema de encosto dos bancos da Saveiro acomoda melhor as costas do que o da Strada, que utiliza um sistema de alavancas, enquanto a outra usa uma esfera milimétrica.

O volante da VW pode ser ajustado em altura e profundidade. O da Fiat, só em altura. Com isso, a posição de dirigir é mais confortável na Saveiro. Seria melhor ainda se o visual interno da picape não fosse tão conservador. Dirigindo a Saveiro, você não tem a sensação de que está numa picape, muito menos numa picape “cross”, pois seus instrumentos são iguais aos de um Gol ou Voyage. Já a Strada
Adventure oferece um visual exclusivo no quadro de instrumentos e os três marcadores da parte de cima do painel contendo uma bússola e dois inclinômetros. Se a proposta é “cross” ou “adventure”, é razoável supor que eles podem ser úteis.

O visual externo bem aventureiro da Strada passa pelas imponentes proteções de plástico das caixas de roda e dos para-choques, além do estribo lateral. A Saveiro é bastante discreta nesse ponto. Se não fossem os novos equipamentos eletrônicos para uso off-road, seria mais fácil identi cá-la como uma picape esportiva para o asfalto do que para a terra. As duas têm rodas muito bonitas e exclusivas – aro 15 na Saveiro e 16 na Strada. 

A prova de fogo foi o teste das caçambas. A Saveiro utiliza o estepe sob a caçamba, o que deu a ela 734 litros de capacidade, mas um certo desconforto na hora de trocar os pneus. A Strada optou pela praticidade e deixou o estepe em pé dentro da caçamba, mas com isso só consegue transportar 680 litros. Para compensar, a caçamba da Strada cabine estendida mede 1,42 m (1,72 m na cabine simples), enquanto a da Saveiro mede 1,34 m (1,65 m na simples). Para testar a utilidade dessas picapes para a cionados por motos off-road, colocamos uma Honda CRF 230F nas duas caçambas. Sobrou muita moto em ambas! Essa moto mede 2,059 m e é uma das menores de sua categoria. Somente a Honda CRF 150F é menor (1,945 m), mas também não caberia nessas caçambas. Muito menos as motos XTZ da Yamaha, que vão de 2,050 m a 2,246 m. Reprovadas no teste da moto, resta às picapinhas o consolo de poder carregar até 620 quilos (Saveiro) e 650 quilos (Strada), desde
que não sejam objetos muito compridos.

Depois de rodar com as duas picapinhas e avaliar suas características, nossa conclusão é que a Saveiro Cross, descontando a pouca inspiração de seu interior, tornou-se mais agradável de utilizar no dia a dia e mais e ciente nas estradas de terra do que sua poderosa rival. Todavia, essa injeção de ânimo na versão Cross no máximo vai fazer a Saveiro vender mais no nicho de cabines estendidas. A liderança da Strada está longe de ser ameaçada, pois só 20% de seu mix é destinado para esse tipo de carroceria. As maiores vendas vêm da cabine simples (30%) e principalmente da cabine dupla 50%), justamente a con guração que a Volkswagen nunca ofereceu.

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