28/04/2026 - 12:28
Shawn Xu foi presidente da Chery do Brasil por três anos e meio, e agora é CEO global da Omoda Jaecoo. Em uma entrevista para a MOTOR SHOW e um restrito grupo de jornalistas brasileiros em Wuhu, na sede da Chery Automobile, dona da marca, ele falou sobre os planos da marca para o Brasil.
Shu ainda não confirmou a fábrica da marca em Itatiaia, RJ, de sua parceira na China Jaguar Land Rover — de quem acaba de adquirir a marca Freelander (leia aqui). A unidade está subutilizada há anos e deve ser o destino da produção nacional da Omoda Jaecoo (e poderia abrigar também a Lepas, outra marca já confirmada para o mercado brasileiro e — por que não? —, talvez a própria Freelander).
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Apesar de não confirmar a localização da fábrica brasileira nem a eventual presença de outras marcas do grupo na linha de produção, ele disse que a produção nacional começa no início de 2027, pois conhece bem o “grande e difícil” mercado brasileiro e considera que ter uma fábrica aqui é “obrigatório”, e que ela também servirá de hub para exportação para o mercado argentino.
Para começar uma produção tão rápido assim, não dá para partir do nada — o que indica que a marca usará mesmo uma planta já pronta, como é o caso da unidade da Land Rover, e não a da Caoa Chery em Jacareí, que exigiria uma reconstrução total. Shu disse que em breve terá notícias confirmando a decisão da Omoda Jaecoo.

O executivo ainda indicou que vai priorizar os modelos HEV e PHEV, e que, como o “Omoda 5 está indo muito bem” e o “brasileiro gosta muito de SUVs e deseja baixo consumo e boa potência”, a produção deve se iniciar justamente com Omoda 5 e Jaecoo 5 — sobre o segundo, o executivo ainda disse que ele une características ao “estilo Land Rover” a ser “compacto” e “pet-friendly” (segundo ele, no Brasil muitas pessoas “não querem filhos, só precisam de um cachorro”).
Apesar de não dizer com todas as palavras que Omoda 5 e Jaecoo 5 são os escolhidos para estrear a linha de produção, ele afirmou: “Assim que nossa fábrica estiver disponível, vamos considerar os produtos de alto volume, eles serão nossa primeira prioridade para fabricação nacional. Isso inclui o Omoda 5 e o Jaecoo 5”. Como os modelos compartilham plataforma e mecânica e o Omoda 5 é o carro mais vendido e mais competitivo da marca hoje, a conclusão é inevitável.

Leia abaixo a íntegra da entrevista com o CEO mundial da Omoda Jaecoo:
Sobre os rumores da Omoda Jaecoo assumir a fábrica da Land Rover no Rio de Janeiro. Essas conversas estão ativas e qual será o primeiro modelo?
Sr. Shawn: Eu entendo bem as necessidades do mercado brasileiro, pois trabalhei lá por três anos e meio. É um mercado grande e difícil, por causa do trabalho de engenharia para adaptação para os carros serem flex e para fazer uma fábrica. E consideramos que ter uma fábrica no Brasil é obrigatório. Quando pensamos na Omoda Jaecoo no Brasil, estudamos diferentes opções: construída por nós ou comprada. Consideramos todas as opções, incluindo a que você mencionou. Escolhemos uma, e não posso dizer exatamente agora por questões de confidencialidade, mas vai acontecer em breve. Quando finalizado o acordo, avisarei a vocês primeiro.
Pergunta: O Omoda 4 será o modelo de entrada da marca. Globalmente, ele terá versões elétricas, híbridas e a combustão, mas cada mercado tem especificidades. Como o senhor enxerga o que seria o produto correto para o Brasil?
Sr. Shawn: O Omoda 5 está vendendo bem no Brasil, e pode chegar a 2.000 unidades este mês, e este mês pode ser o número um entre os HEV. Esse é um SUV compacto e os brasileiros gostam de SUVs compactos. Ele tem uma personalidade única, ao vê-lo todos sabem que é da Omoda. Nós chamamos o HEV de super-híbrido. Chamamos assim porque em muitos híbridos o consumo é bom, mas falta potência em altas velocidades. Acima de 100 km/h, o motor fica barulhento. Os jovens querem potência. Eles querem chegar antes dos outros, querem baixo consumo e potência. Precisamos de ambos. Queremos dar a melhor experiência ao volante. Por isso as pessoas gostam dos HEVs. Mas nosso BEV também é muito potente e está vendendo muito bem em mercados como Tailândia, Indonésia e na Europa, no Reino Unido. Então também podeos ter um elétrico para o Brasil, pois há no Brasil uma grande demanda por BEVs.
Pergunta: O Jaecoo 5 tem gerado muito interesse no Brasil. Ele seria uma opção mais interessante para começar a produção no Brasil, já que tem preço mais alto e maior margem de lucro?
Sr. Shawn: Assim que nossa fábrica estiver disponível, vamos considerar os produtos de alto volume, eles serão nossa primeira prioridade para fabricação nacional. Isso inclui o Omoda 5 e o Jaecoo 5. O Jaecoo 5 chamou muita atenção no Brasil, e em outros mercados, onde já é um grande sucesso, e acredito que também gostarão muito dele no Brasil. Ele é um carro com design estilo Range Rover, além de ser compacto e ter boas características como ser “pet friendly”. Eu morei no Brasil por mais de três anos e sei que muitas pessoas não precisam de filhos, só de pets. Por isso criamos um SUV que tem essa conexão melhor com os clientes.
Pergunta: O mercado brasileiro está acostumado a motores pequenos, 1.0 flex, tecnologias não tão avançadas quanto os HEV ou PHEV. A Omoda Jaecoo é uma empresa high-tech no Brasil. Podemos dizer que os produtos da Omoda Jaecoo sempre terão eletrificação no Brasil e veremos produtos 1.0 flex eletrificados?
Sr. Shawn: Os híbridos e elétricos são o primeiro passo. O motor é importante, mas não se trata só disso, do tipo de motor. O motor é importante, mas não é tudo. Vamos lançar motor a combustão no futuro próximo se os jovens gostarem, mas agora o híbrido, HEV e PHEV, é nosso foco. Temos motor especial, transmissão e bateria especiais para os híbridos. Não se trata de uma adaptação do motor tradicional para virar híbrido. Mesmo que no futuro tenhamos motor a combustão, os híbridos serão essenciais em nosso portfólio. Sobre o motor 1.0 TGDI, nós temos esse motor na Chery, mas vamos comparar o que é mais econômico para o mercado brasileiro e ver a resposta do mercado. Temos muitas opções, e veremos o que vamos escolher para os consumidores.
Pergunta: Quais características vocês consideram mais importantes para uma cidade sediar a fábrica e quando a decisão será tomada?
Sr. Shawn: Já perguntaram isso. A Chery tem 24 fábricas no exterior. Temos fábricas em muitos mercados, incluindo o Brasil. Não é um problema fazer fábricas, é apenas um caminho; quando o mercado precisa, nós construímos. E rápido. (…) É confidencial, assinamos um contrato de confidencialidade. Quando o mercado precisa, construímos uma fábrica em poucos meses. Somos rápidos. Não posso falar ainda, mas ela estará pronta muito em breve. Falaremos muito em breve sobre nossa decisão. Esperamos começar a produção no começo do ano que vem. Estamos nos apressando porque o Brasil precisa de uma fábrica. É questão de sobrevivência. Normalmente leva-se dois anos para fazer uma fábrica, mas queremos finalizar este ano e começar a produção no início do ano que vem. Este é nosso plano. Estamos vendendo bem e não podemos perder, queremos crescer, e por isso queremos uma fábrica logo.

Pergunta: Vocês pretendem entrar em outros segmentos no Brasil?
Sr. Shawn: Já debatemos isso. Somos muito jovens Três anos de China e um ano de Brasil, com apenas um ano de operação. Para Omoda, teremos crossovers. Na Jaecoo, SUVs com pegada off-road. Hoje, é isso. Se no futuro o cliente precisar de algo diferente, podemos considerar, mas não agora. Provavelmente nos próximos dois anos não consideraremos outros segmentos até termos uma base sólida.
Pergunta: Quais os planos para América do Norte (EUA e Canadá)?
Sr. Shawn: Eu acabo de vir da cerimônia de assinatura do acordo com o Canadá. Então, sim, teremos uma subsidiária no Canadá ainda este ano. Depois iremos ao próximo estágio. Acabo de vir da cerimônia com as concessionárias no Canadá.
Pergunta: Em quantos países a Omoda Jaecoo quer estar presente até o fim de 2026?
Hoje temos 69 mercados em operação. Diferente da Chery, que usa muitos distribuidores, a Omoda & Jaecoo opera com subsidiárias próprias em grandes países, como Brasil, Austrália e Tailândia, Malásia… e também na Europa, na Espanha, na Itália, etc. Estamos crescendo rápido. Queremos chegar a cerca de 100 mercados até o fim do ano que vem. Algumas subsidiárias chegarão em breve, como Alemanha e Argentina. Teremos a Omoda Jaecoo no Canadá.
Pergunta: Sobre os modelos menores como o Omoda 2 e o Jaecoo 3, quais são as possibilidades de chegarem ao ao Brasil e com quais motores?
Sr. Shawn: O Omoda 2 já estamos analisando com nossos parceiros [os concessionários viram estes dias]. A mídia ainda não verá, porque está em um estágio inicial. Ele tem cerca de 4,2 metros. Omoda 5 tem 4,5 metros, o Omoda 4 tem 4,40 metros. Teremos versões elétricas (BEV), híbridas (HEV) e também a combustão. É um carro pequeno que cabe bem no mercado brasileiro, é um carro pequeno e o brasileiro gosta. O mercado do Brasil é uma prioridade para este modelo. Teremos mais detalhes sobre ele em aproximadamente seis meses, e vocês poderão nos dizer se os brasileiros gostarão dele.

Pergunta: A fábrica brasileira será um hub de exportação para a Argentina?
Sr. Shawn: Eu é que deveria dizer isso. Então a resposta é “sim”. Por isso preciso de uma fábrica nossa. Sim.
Pergunta: O Brasil é um país continental, mas tem poucos carregadores. Qual é o carro ideal para o Brasil, HEV ou PHEV? E vocês vão investir em estrutura de carregadores?
Sr. Shawn: Vocês são quase tão grandes quanto a China, mas com menor população. E podem viver em grande parte dele, mais que na China. Eu morei perto de São Paulo. Em termos de infraestrutura, em cidades pequenas pode-se carregar o carro em casa. Não dá pra comparar, a China tem carregadores em qualquer lugar, mas o Brasil até dá pra carregar bem em casa ou na rua. Não planejamos investir em carregamento, não podemos comprar terras para fazer estações. Nosso negócio é automotivo. Mas as vendas de BEV vão bem, e o governo deve cuidar disso, e as pessoas carregarem em casa, não está tão mal. Além disso, os HEVs vão bem, e nossos PHEVs não precisam ser carregados. Se não tiver onde carregar, nossos PHEVs vão bem. Eles estão uma geração à frente, e por isso não chamamos nossos carros de PHEV, mas de super-híbridos. Nos PHEVs normais, a bateria “morre” e o consumo fica pior do que em um carro a combustão, porque a bateria é pesada. Nos nossos super-híbridos, pode-se andar sem carregar o carro.
