Bastam 15 minutos nos bairros de classe média e alta de São Paulo, de preferência no horário de almoço ou jantar, para ver que já virou regra: a maioria das motos não respeita as leis de trânsito.

Elas circulam em calçadas, faixas de pedestres, “no corredor” em velocidades absurdas; não respeitam semáforos, andam em sentido e local proibidos; abrem caminho na buzina e não deixam os carros mudarem de faixa. Xingam, ofendem, ameaçam.

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Questão de saúde pública 

Só na capital paulista, mais de 40 mil pessoas foram internadas só nos primeiros cinco meses do ano passado, e isso apenas em hospitais públicos, vítimas de acidentes de trânsito envolvendo motocicletas.

Em quase três quartos dos municípios brasileiros (71%), os acidentes de trânsito matam mais do que as armas de fogo – e a chance de morrer em um acidente de moto é 17 vezes maior do que em um acidente de automóvel.

Em 2024, as internações envolvendo motociclistas custaram ao SUS, o Sistema Único de Saúde, mais de R$ 257 milhões.

Motos no trânsito de São Paulo - Foto: Divulgação/Governo de SP - mercado de motos
Motos no trânsito de São Paulo – Foto: Divulgação/Governo de SP

De quem é a culpa?

Claro que temos os culpados de sempre – a imprudência, o álcool, etc. –, e a fiscalização insuficiente também tem um peso  importante no problema. Mas há também outras causas, mais contemporâneas.

Primeiro, e talvez principalmente, com as gigantes dos aplicativos de entrega de comida operando forte nas grandes cidades, para os motoboys e entregadores, cada segundo conta.

Seguindo a lógica da uberização do trabalho, o motoqueiro recebe por entrega, e é tudo que ele tem. Não há um pagamento básico ou fixo, nem por tempo de espera.

Seria mais justo com os entregadores que o pagamento considerasse outros fatores e não deixasse a cargo do motoqueiro ganhar cada segundo para receber mais alguns reais.

E não podemos eximir da culpa os consumidores que não cozinham mais e exigem rapidez na entrega, alimentando a situação.

Videomonitoramento ajuda na fiscalização de trânsito

Só o lucro importa 

Mas, para as big techs das entregas, como 99, iFood e Keeta, o negócio é a tecnologia do app e o lucro. Meios e responsabilidades (ou a falta deles), como na Uber, são dos próprios motoristas/entregadores.

Ninguém é treinado devidamente, e, como só interessa às empresas que as entregas sejam feitas, e não como são feitas, elas não se responsabilizam. Não controlam sequer o estado das motos usadas nas entregas.

Isso nos leva a outro problema, com custos e dramas mais ocultos, mas não menos graves: a poluição causada pelas motocicletas.

Os modelos um pouco mais antigos já são mais poluentes que carros em condições ideais. Mas o que vemos é um número crescente de motocicletas com escapes modificados.

Além de não terem catalisador adequado, e poluírem muito mais o ar, o “legal” é justamente que sejam o mais barulhentas possível – chamam a atenção, “impõem respeito” e as tornam mais visíveis (ou audíveis), aumentando a segurança, segundo entregadores.

Então, mesmo as ruas mais tranquilas, nos picos das entregas, tornam-se extremamente ruidosas, e isso afeta a saúde mental dos cidadãos.

Trânsito em São Paulo
Trânsito em São Paulo – Crédito: Divulgação/Prefeitura da Cidade de São Paulo

Dever das empresas de entrega

Empresas que contratam motoqueiros “independentes” para fazer entregas deveriam ser obrigadas a fazer uma inspeção periódica nas motocicletas dos “subcontratados”.

Elas podem implantar um tacômetro via app, para coibir o excesso de velocidade, e calcular o pagamento de modo a não deixar os entregadores desesperados por ganhar cada segundo.

Isso, entre outras medidas, é urgente para acabar com essa loucura nas ruas. E, se não for pedir demais, as prefeituras poderiam subsidiar e incentivar as empresas a usar motocicletas elétricas.

Vale lembrar que está em discussão no Congresso a regulamentação dos entregadores, mas a proposta ignora esse tópico.

Fiscalização de motos e responsabilização zero

E, obviamente, é fundamental que os órgãos responsáveis pela fiscalização de trânsito – a CET-SP, pelo menos, não faz nada a respeito – assumam sua parte na solução do problema.

Se não houver multas e apreensão das motocicletas barulhentas, não há respeito nem ordem. Já passou da hora das empresas de entregas – e dos órgãos de trânsito – se responsabilizarem.

Radares de trânsito - Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil - radares com IA
Já há radares com capacidade de multar motocicletas ou carros ruidosos – Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil