"Os carros correm atrás de mim"

Simples e discreto, Og Pozzoli é um dos maiores antigomobilistas do Brasil, mas raras vezes concorda em mostrar seu acervo e posar para fotos. Em um domingo do mês de fevereiro, ele abriu as portas de sua casa, na grande São Paulo, para receber a equipe de MOTOR SHOW. É lá que ele guarda parte de sua coleção com 170 carros tão antigos quanto raros e representativos. O restante fica em sua fazenda, também no interior do Estado. Simpático e bem humorado, Og conhece detalhadamente cada um de seus exemplares. “Tenho uma biblioteca onde posso pesquisar antes de iniciar uma restauração”, conta.

Nascido no Rio de Janeiro, o empresário viveu muitos anos em Natal (RN) e, somente em 1956, veio para São Paulo dirigindo um Opel P4 1937, seu primeiro carro. “Foram 17 dias de viagem e 3.400 km rodados por estradas de terra e asfalto. Mas quando cheguei tive de vender o carro por necessidade”, conta. Passados dois anos de muito trabalho, Og adquiriu um luxuoso Lincoln Continental 1948, que foi o primeiro veículo de seu acervo. “Era um carro barato. Os ricos não o queriam por ter dez anos de uso e os menos afortunados não tinham dinheiro para manter o consumo e a manutenção”, lembra. Em 1959, chegou o segundo exemplar: um Fusca zero-quilômetro. “Paguei até ágio por ele”, relembra. Na sequência, Og comprou um Ford A 1928, “apenas para brincar o Carnaval”, mas decidiu manter o modelo na garagem quando a festa acabou. “De lá para cá, não parei mais. Os carros correm atrás de mim. Depois que compro um carro, não consigo mais vendê-lo”, diz.

Os carros ficam organizados em três galpões no terreno de sua residência. A cada porta que se abre é como mergulhar no passado. Estacionados sobre cavaletes e protegidos do tempo, raridades parecem saídas da linha de montagem e funcionam perfeitamente. “Percorri 9.600 quilômetros com um Chevrolet 1941. O único problema foi um pneu furado. Tenho preferência por carros americanos”, confessa. Fica difícil saber para onde olhar. O Cadillac De Ville 1953 nunca foi restaurado e ganhou apenas um polimento. No hodômetro: 20 mil quilômetros originais. “Por um tempo, o Brasil ficou conhecido como o país dos Cadillac porque muitos deputados do Rio traziam os modelos”, comenta.

Os modelos ficam organizados em galpões sobre cavaletes e todos funcionam perfeitamente. Acima, um Cadillac 1953 (verde) que nunca foi restaurado e tem 20 mil km originais. Abaixo (ao fundo, na quina das paredes) uma das duas jardineiras Fiat 1912, que são os modelos mais antigos do acervo. À esquerda, seu retrato com Roberto Lee (de branco), que também foi um grande colecionador e fundador do museu do automóvel de Caçapava 

Os dois carros mais antigos da coleção são as jardineiras Fiat, de 1912. Og conta que comprou quatro exemplares e utilizou as peças de um no outro. “Este ano, elas completam 100 anos”, conta. O Packard Super 8 Limo 1940 tem uma história ainda mais inusitada. Segundo Og, como não existiam motéis naquela época, o proprietário adquiriu o modelo somente para namorar no banco traseiro. “Pode conferir que há espaço de sobra para isso!”, brinca. Outro caso curioso é o do Chevrolet 1932, enterrado pelo proprietário (que queria escondê-lo) durante a Revolução de 32.

E as histórias não param: o modelo americano Mumm de 1918 serviu ao presidente Washington Luiz, de 1926 a 1930. O que está com o colecionador é o único exemplar que sobreviveu e levou dois anos para ser restaurado. O Chrysler Imperial 1920 foi utilizado por Og para transportar o papa João Paulo II durante a sua primeira visita ao Brasil. “Ele é um modelo fora de série, com carroceria de alumínio”, frisa. E não para por aí. Na coleção também há o Oldsmobile 1926 do senador Rudge Ramos e o Studebacker do presidente Venceslau Brás. “O carro veio de Brazópolis e tem a placa da época”, explica. Algumas raridades guardam um valor inestimável. O Graham Paige foi o primogênito da Mitsubishi. “Era caríssimo e o baú para transportar objetos é da grife Louis Vuitton”, explica.

São 52 anos de dedicação e amor aos automóveis, um trabalho que Og resume com uma incrível simplicidade: “Carros são como os filhos. Cada um deles tem a sua importância.”

 

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