Os desaparecidos

Cada vez mais consumidores saem das concessionárias frustrados: vêem novos carros serem lançados, nas revistas e na tevê, decidem dar uma conferida na concessionária mais próxima e saem com as mãos abanando, ou com um destino ingrato: pagar um valor de reserva, voltar para casa e esperar até seis meses pelo tão desejado zero-quilômetro.

O campeão das filas é o novo Ford Ka. Alguém tem visto propagandas do carro? Não, pois, com as vendas garantidas para clientes que toparam aguardar até seis meses pela entrega do modelo, a montadora suspendeu as ações publicitárias, já que anunciar algo que não se pode vender não faz sentido. Decidimos conferir a situação, e saímos em busca de um Ka.

Depois de ligar para diversas concessionárias em todo o País, a crise do carro zero foi comprovada: quase todas elas pediam uma reserva, que variava de R$ 500 a R$ 1.500, e nenhuma prometeu o carro para menos de 40 dias. “A Ford lançou vinte catálogos, mas só mandou dez para vendermos”, disse a vendedora da concessionária Sonnervig, em São Paulo. Outro vendedor, da Super Ford, chegou a dizer que a marca “suspendeu a venda do carro”, e que iria, após o preenchimento de uma intenção de compra (sem pagar sinal), nos colocar no cadastro da marca.

Na Mix, outra concessionária Ford, o recorde (ou a maior sinceridade do vendedor): “Em média, um Ka demora 180 dias. Tenho aconselhado fazer reserva em junho”. O mesmo vendedor tentou nos convencer a comprar outro modelo. “Não quer levar o Fiesta? Tenho para entregar em 30 dias.” A mesma situação se repetiu com as mais diversas marcas e modelos, principalmente – mas não só – com as principais novidades do mercado. Nas próximas páginas, veja alguns dos campeões das filas.

Achar os modelos mais procurados em revendas independentes é possível, mas o preço é maior que o comum: é a volta do ágio

Afinal, o que acontece? Claro que nenhuma montadora acha bom ter clientes interessados em comprar seus carros e não ter como entregá-los a eles.

Em uma pesquisa nas concessionárias de várias marcas, identificamos alguns dos carros com maior fila de espera. Consultamos também as montadoras. Veja os principais campeões de espera:

Este consumidor “desamparado” pode acabar decidindo por comprar um seminovo ou um modelo de outra marca. O representante da Fiat confirma: “Estamos buscando garantir a oferta, mas o mercado pode mesmo investir em seminovos”. Alberto Pescumo Filho, gerente-geral comercial da Honda, acha que o perigo não é tão grande: “Confiamos muito na força de nossos produtos e também no desejo do cliente. Do lançamento do New Civic até um ano depois, havia clientes que esperavam mais de 120 dias. Se ele realmente quer o carro, aconselho que espere”. Para quem não pode esperar e não quer um seminovo, ainda resta outra opção, não recomendada por questões éticas e financeiras: vendedores independentes (ou até algumas concessionárias) que cobram um valor mais alto que o normal, aproveitando a grande procura: o famoso ágio está de volta…

“Investimos 60% em produto e 40% em capacidade (…) não o suficiente para atender o mercado em 2011.”

Thomas Schmall, presidente da VW do Brasil, em entrevista ao jornal “Folha de S.Paulo”, sobre os investimentos da marca

A volta do ÁGIO

Um Ford Ka básico tem preço de tabela de R$ 25.190. Em lojas do mercado independente, achamos o modelo para pronta entrega vendido por R$ 29.199. Os mais de R$ 4.000 de diferença são chamados ágio. A situação se repete em diversas versões, dos mais diferentes modelos e montadoras.

O novo Honda CR-V é outro modelo difícil de encontrar. As filas se formaram em fevereiro, antes do lançamento oficial da versão importada do México. O preço sugerido é R$ 94.500, para a versão EX 4×2. Mas nas concessionárias, a espera ia de 30 a 90 dias, e era preciso pagar de R$ 3 mil a R$ 5 mil para fazer a reserva.

Os preços do CR-V variavam dos R$ 94.500 de tabela até R$ 98 mil, conforme a concessionária. Então por que estavam cobrando até R$ 3.500 adicionais? “Não existe ágio. Na verdade, hoje os preços são sugeridos, não posso estabelecê-los. O concessionário compra meu produto e vende pelo preço que ele quiser. (…) Não interfiro quando cobra mais nem quando dá desconto. É lei de mercado mesmo, o consumidor tem todo o direito de comprar ou não comprar”, diz Pescumo, da Honda. É o preço do sitema capitalista de livre mercado…

Até superesportivos, como o novo Audi R8, acima, geram filas: nos Estados Unidos e na Europa, o consumidor tem que esperar até seis meses. Já o novo Fiat 500 tem filas de espera para algumas de suas versões, que chegam a um ano, na Inglaterra

Portanto, cabe ao consumidor esperar pelo modelo que tanto deseja e se recusar a pagar valores acima dos sugeridos por estes veículos. Ou ainda, se a compra for mais urgente, pensar em modelos alternativos, sem filas – eles ainda existem. O Renault Logan, por exemplo, é um carro fácil de ser encontrado para pronta entrega. O mesmo vale para CrossFox, algumas versões do Fox, Fiat Idea (não na versão Adventure).

Na verdade, excluindo os carros da lista destas páginas, com filas para quase todas as cores e em qualquer região do Brasil, saber quais modelos têm fila de espera e quais não têm depende de uma pesquisa na sua cidade, na sua região, conforme a cor, versão e opcionais que você deseja. “As filas dependem muito da concessionária e região”, explica o representante da Fiat. Pescumo, da Honda, tem uma resposta parecida : “Tanto Fit quando Civic têm filas dependendo da versão e da cor. Não dá para generalizar. Se você quiser um Civic que não seja preto ou prata, muito provavelmente vai encontrá-lo para pronta entrega”. Realmente, abrindo mão de escolher os detalhes, as opções aumentam um pouco.

“As vendas começaram fortes em 2008 e prevemos novo crescimento em relação a 2007, superior a 30%”

Francisco Stefanelli, diretor nacional de vendas da GM, sobre as previsões e os resultados das vendas de automóveis

Filas POR QUÊ?

Esta talvez seja a mais importante pergunta a ser respondida. Como a indústria automotiva nacional deixou a situação chegar a este ponto e por que elas não conseguem produzir o suficiente para atender à demanda dos consumidores?

A resposta não é simples e inclui diversos fatores. O primeiro, e mais facilmente diagnosticável, é o fato de que a economia vai bem. As classes média e média baixa passaram a ter uma renda maior, os juros dos financiamentos baixaram e seus prazos foram alongados (até 84 meses). Com uma pequena parcela mensal, ficou mais fácil comprar um 0km.

Segundo Luiz Carlos Oliveira Andrade Jr., vicepresidente da Toyota Mercosul, o número total de compradores de carros zero-quilômetro cresceu 284% de 2004 para 2007. Isso mesmo, quase triplicou a quantidade de pessoas com condições de trocar o carro velho por um novinho, com garantia e sem perigo de surpresas indesejáveis.

O fato é que, depois do ano passado, quando o setor bateu recorde após recorde, alcançando uma marca histórica de emplacamento de veículos e crescendo mais de 27% em relação a 2006, algumas montadoras parecem não ter acreditado que o ritmo de cresimento continuaria tão forte agora em 2008.

Isso não significa que as montadoras não tenham investido em produção – muitas têm feito fortes investimentos em ampliação da capacidade produtiva, seja com mais turnos de trabalho, contratação de novos funcionários ou ampliação de suas fábricas. Mas, ao que tudo indica, ainda não foi o suficiente.

“A GM tem tomado várias decisões para de ampliar a produção em suas fábricas e, recentemente, anunciou a criação do terceiro turno na unidade de São Caetano do Sul (SP) ainda neste primeiro semestre. Esta medida está implicando na contratação de 1.500 novos funcionários, afirma Stefanelli, da GM. Isso sem contar que a marca anunciou a construção de uma nova fábrica de motores em Joinville (SC), que deve começar a operar no final do ano que vem. Trata-se sem dúvida de uma medida um pouco tardia, mas necessária.

No gráfico, a expectativa do governo para a produção nos próximos anos, com R$ 12 bi de investimentos das montadoras. Enquanto a Renault (esq.) está dando conta do recado, a VW tem previsões ruins

Pescumo, da Honda, diz que no ano passado a capacidade de produção cresceu 72%. Bom, mas não suficiente, uma vez que a marca pretende começar a trazer produtos da Argentina, já que a unidade brasileira está trabalhando no limite. O presidente da VW também manifestou preocupação, em entrevista ao jornal “Folha de S.Paulo”: “O investimento está 60% no produto e 40% em capacidade e estrutura, e esses 40% não são suficientes para atender ao mercado em 2011”.

A montadora com as menores filas é a Renault. Como trabalhava com produção abaixo de sua capacidade, ficou mais fácil para ela crescer. Ricardo Gondo, diretor comercial da marca, explica que “a Renault começou a se preparar para crescer em 2006, com o Contrato 2009. A Renault conseguiu antecipar o crescimento, pois estava em nossos planos o aumento no volume”.

Seja como for, a marca pode se orgulhar de ter quase toda sua linha de produtos para pronta entrega, isso sem utilizar toda sua capacidade produtiva. Isso significa que, pelo menos para ela, o mercado pode crescer à vontade. “Temos margem para crescer mais” acrescenta. Enquanto isso, a Fiat investe em sua nova fábrica de motores, no Paraná, e outras marcas também anunciam investimentos. Esperamos que elas consigam logo atender à demanda e se preparem para os próximos anos. Afinal, o consumidor tem todo o direito de comprar seu carro zero. E que seja sem esperas, sem ágio e sem sofrimento!

CAMPEÕES das filas

40 a 180 dias

O novo Ford é campeão de filas, e sua propaganda foi suspensa

20 a 160 dias

Importado do México, é mais fácil achá-lo nas maiores capitais

60 a 100 dias

As versões mais procuradas são as equipadas com motor 1.6 flex

40 a 90 dias

No lançamento, a montadora já prometia organizar bem as filas

40 a 90 dias

Agora mais barato, são 40 dias de fila pelo 4×2 e 90 pelo 4×4

até 60 dias

É a fila média para a versão SRV equipada com câmbio automático

30 a 60 dias

Isso para o modelo 2008. Agora, com a linha 2009, deve aumentar

30 a 60 dias

O excelente motor 1.4 gerou filas grandes desde quando foi lançado

30 a 60 dias

Dependendo da versão e dos opcionas, dá para esperar menos

30 a 60 dias

Recém-reestilizado, a maior procura é pelas versões Dualogic

30 a 45 dias

Segundo a GM, a espera é a mesma para a picape Montana

até 45 dias

Linha Adventure e Siena também pedem paciência ao consumidor

30 a 35 dias

Já é menor que no ano passado, e maior nos modelos preto e prata

15 a 30 dias

A espera também diminuiu, mas pode ser maior conforme a versão

até 30 dias

Mesmo com vendas em alta, não demora. Logan tem pronta-entrega