Os percalços do cotidiano de um jornalista automotivo

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O CARRO CERTO NA HORA ERRADA: o Porsche Panamera do motorista inglês acabou atolado. Um jornalista automotivo responsável em um carro de testes teria mudado os planos de viagem (foto: www.express.co.uk)

Dirigir no dia a dia carros que nem foram lançados, dos mais comuns a superesportivos. Pilotar máquinas divertidíssimas em variados autódromos pelo mundo afora. Realizar test-drives em locais exóticos como as dunas do Marrocos e o gelo do Círculo Polar Ártico, ou pitorescos como vilarejos do interior da França. Conhecer as novidades em primeira mão, em Salões ainda fechados ao público. Andar sempre de carro zero sem pensar em manutenção, se preocupar com desvalorização, seguro ou IPVA. Não correr o risco de esquecer a troca dos amortecedores ou pastilhas de freio. Não ver o carro envelhecer.

A vida de jornalista automotivo tem seus privilégios – ainda mais para nós, que escolhemos a profissão justamente por gostar tanto de carros. Os carros que avaliamos na revista são emprestados pelas montadoras e importadoras por períodos de poucos dias a algumas semanas, dependendo do modelo. Assim, trocamos de carro toda semana, às vezes mais de uma vez por semana.

Dessas coisas todas, obviamente não reclamamos. Mas o cotidiano com essas trocas todas de carro também tem seus percalços. Fiz uma lista com alguns deles.


1) Nenhum carro é seu
As pessoas têm carros “fixos”. Personalizam, colam adesivos. Abrem o porta-luvas e têm lenços, comida, suas coisas. No console central, a chave de casa, o crachá, umas moedas. No porta-malas, mudas de roupas das crianças, brinquedos, tudo o que você imaginar. Isso sem falar que trocar de carro toda hora é carregar cadeirinha infantil de lá para cá. Prende, solta, prende, solta… E o pedágio? Nenhum sistema automático, desses com tags no para-brisa, pode ser usado em carros variados. Uma assinatura por placa, exigem registro. E aí resta perder tempo na fila. E o registro da segurança do prédio? E por aí vai.

Claro que também podemos ter  carros próprios. Quem tem, mesmo assim acaba usando muito pouco. Afinal, dirigir os carros de teste não é opcional, e como são muitos deles para equipes pequenas, precisamos aproveitar todas as oportunidade de dirigi-los.

2) Vizinhos desconfiados
Chegar em casa cada semana com um carro diferente – sempre zero-quilômetro, às vezes valendo mais do que a própria casa ou apartamento – desperta dois sentimentos principais nos vizinhos, nenhum deles bom. O primeiro é a inveja, mas essa você pode simplesmente ignorar (ou comprar um pé de arruda para espantar o olho gordo). Já o segundo é mais delicado: a desconfiança. Porque você está sempre trocando de carro? É algum tipo de criminoso? Político corrupto, traficante? Um ou outro pensam em algo menos grave – que é ser dono de loja de carros, por exemplo –, mas pouquíssimos têm a coragem de perguntar.  

O melhor é explicar logo, mesmo que não perguntem (e antes que o denunciem para a polícia ou comecem as fofocas nos elevadores). “Não é meu, trabalho na revista MOTOR SHOW”, explico. A desconfiança acaba, mas aí vem o problema número 3. Vamos lá…:

2) Consultoria gratuita
Depois que todos seus amigos e vizinhos descobrem que é o “especialista da revista”, você automaticamente é obrigado a aconselhá-los a cada troca de carro. Te param no hall,  no elevador, na garagem… e querem que os diga que carro comprar. O pior é que algumas  vezes já estão decididos. Aí você sugere um carro e eles aparecem com outro – aquele que você disse que não valia a pena. E há, ainda, os que reclamam depois, que não gostaram da sua sugestão (e nem ao menos pagaram por ela). Dá vontade de parar o médico do segundo andar e pedir uma consulta gratuita, levar meus problemas tributários para o advogado da cobertura…

3) Reaprendendo a andar
A alavanca dos Mercedes-Benz ficam na coluna de direção. Começa a chover e, em vez de ligar o limpador… vvvvrrrrrrraaaaaauuuum… você colocou o carro em ponto morto, acelerou um monte e perdeu velocidade. Você devolve o Mercedes, entra em um Corolla.. Vai engatar o D para sair e liga o limpador. Ué, o que aconteceu? E assim seguem as dúvidas. A troca sequencial sobe marcha para frente ou para trás? O freio de mão é elétrico? Como operar essa central multimídia? Onde conecto o celular? Outro dia dei ré e fiquei esperando o Corolla apitar. Encostei no carro de trás, felizmente não o estraguei: ele têm câmera de ré, mas não sensor de estacionamento com alerta sonoro. Aí você dirige carros automáticos por um tempão; chega um manual e você esquece de pisar na embreagem ao parar no sinal. O carro pula e morre. Barbeiro!

Enfim, é preciso aprender tudo de novo a cada carro. Toda hora. Tudo de novo.

4) O carro certo na hora errada
Você é convidado para um fim de semana na casa de um amigo, na montanha. O caminho tem estradas de terra, normalmente cheia de lama e buracos. Seria uma oportunidade perfeita para testar aquele SUV que você devolveu ontem… mas não para ir com o roadster esportivo que você pegou na sexta. Aliás, ele tem que ser devolvido na terça, você precisa o avaliar, mas teria sido perfeito é no fim de semana anterior, quando você desceu para a praia naquela serra vazia, de asfalto perfeito (em um carrinho 1.0). E quando você precisa ir ao supermercado e aparece um smart fortwo? Ou pior, vai viajar no fim de semana e não dá nem para levar seu filho, pois o carro só tem dois lugares.

Não podemos escolher muito bem quais carros vão para a redação e quando. Até tentamos programar, mas se a vida é cheia de imprevistos, os carros de teste, sujeitos a acidentes, devoluções atrasadas, defeitos e revisões demoradas, são mais imprevisíveis ainda.

5) Perda constante de objetos
Sete óculos escuros, um navegados por GPS portátil, dois guarda-chuvas, chaves de casa, roupas e sapatos da criança, inúmeros CDs e pen-drives com músicas, etc, etc e etc… Já nem sei mais dizer tudo o que já esqueci em carros de teste. Muita coisa é devolvida pela assessoria, mas outras simplesmente somem naquelas poucas horas entre você devolver o carro e perceber que suas coisas ficaram nele.

A lição é que não se pode carregar quase nada para lá e para cá. O melhor é nunca deixar nada no carro, tentar concentrar tudo em uma mochila – e não esquecê-la no carro.

6) Medo de sequestro
Tem carro que todo mundo manda blindar, menos os das frotas de imprensa. Claro, não faz sentido dar ao jornalista um carro que não está conforme as especificações de fábrica. São carros tão caros que acabam atraindo mais assaltantes e sequestradores (ou pelo menos é o que imaginamos). E aí, se aparecer um bandido, você vai ter que convencê-lo que o carro não é seu. Por isso sempre ando com meu crachá. Nos carros mais caros, levo também uma revista no banco do passageiro e mantenho os vidros sempre abertos, para o ladrão pensar “ou esse cara está armado ou tem seguranças o seguindo em outro carro”. Sempre funcionou.

7) Efeito Cinderela
Imagine, depois de alguns dias de prazer ao volante, deslumbre e a mais absoluta felicidade automotiva, largar carros como um Mercedes-Benz AMG GT S, ou um Range Rover Vogue ou um Audi R8 e entrar em um metrô para voltar para casa. Você se sente mais ou menos como a Cinderela depois das doze badaladas do relógio. Aquilo tudo era passageiro, ilusório. Os olhares de admiração nas ruas, o prazer do contato com a estrada e o asfalto, o poder sobre aquela máquina maravilhosa, a sensação de poder… Acabou. Você é um simples mortal, talvez jamais possa comprar um carro daqueles. Mas pelo menos deu umas voltinhas.

PS: a foto que ilustra esse post é de um jogador inglês enganado pelo GPS  (leia aqui a notícia). Nós somos bem mais responsáveis que ele, não enfiamos um Porsche Panamera na lama.