Os SUVs de luxo e o último tabu

Quattroruote

Um Rolls-Royce travestido de SUV/crossover. Até pouco tempo atrás, isso soaria como uma gravíssima blasfêmia, tanto para os adeptos do fora-de-estrada duro e puro quanto – e principalmente – para os fãs de uma das marcas mais tradicionalistas da história. A única certeza que temos é que nós somos capazes de nos acostumar a qualquer coisa. Em 1970, o Range Rover surgiu como primeiro SUV de luxo. Um quarto de século depois, o carro urbano 4×4 nasceu na forma do Toyota RAV4. Depois, em 2003, a Porsche fez um SUV virar ícone esportivo ao lançar o Cayenne.

Mais tarde, a tração integral se tornou opcional, a BMW misturou o X5 com um cupê criando o X6 e, finalmente, com a chegada de EcoSport & cia., mini-SUVs e crossovers dominaram o mercado. Defendendo a ideia de “pureza de marca”, os fabricantes de luxo tradicionais se mantiveram por muito tempo distantes desse mercado. Agora, Rolls-Royce e Bentley – assim como Maserati, Jaguar, Aston Martin e Lamborghini (leia texto “Esperando Audi e Astpn” ao final da reportagem) –, os integralistas do off-road e até os clientes mais conservadores se convertem, um após o outro, aos mandamentos do mercado.


Nossas ilustrações mostram como devem ser os novos SUVs. O Bentayga terá motor 12 cilindros a gasolina, além de uma versão híbirda; o Rolls-Royce, ainda sem nomde, terá estrutura da carroceria toda de alumínio

Ou melhor, a um mercado sem mandamentos. Assim, o Bentayga – o SUV da Bentley do qual se fala há muito tempo – está pronto para sua estreia no Salão de Frankfurt, em setembro. Já a Rolls-Royce confirmou a entrada no segmento em poucos anos. E já adiantamos as linhas desses os dois modelos aqui, em ilustrações exclusivas. Depois de muito observarem as marcas premium, as grifes de ultra-luxo querem se aventurar em novos territórios. E com objetivos específicos. A Bentley, desde 1998 no grupo VW, quer contribuir para o aumento do total de vendas do segmento, que pode crescer 40% até o fim da década, chegando à exagerada marca de 85.000 unidades.

Partindo de 11.020 unidades em 2014, a marca inglesa espera vender 15.000 carros em 2018 e 20.000 em 2020. Nessa estratégia, o Bentayga tem papel fundamental. Segundo o chefão da Bentley, Wolfgang Dürheimer, o utilitário esportivo novato tem atraído às concessionárias, mesmo antes de nascer, clientes que nunca pensaram em comprar um Bentley. É uma abordagem diferente da escolhida pela Rolls-Royce, que, mais do que volumes, foca na rentabilidade. Que o “Espírito do Êxtase” vai posar sobre o capô de um SUV é certeza, porque os clientes da marca de topo da BMW “são mais jovens do que se pensa”, diz Adrian van Hooydonk, diretor de design: “Os próximos cinco/dez anos serão muito interessantes. Temos muito a fazer”.

A decisão de ampliar a linha chega atrasada à Rolls-Royce, em comparação com a Bentley, porque ela está sob comando alemão apenas desde 2003. Quando uma marca de passado tão marcante muda de mãos, a primeira preocupação do novo dono é mostrar que é capaz de proteger seu patrimônio histórico. Só depois você pode começar a pensar em uma renovação. Quem não tem nada a provar é a Ferrari, que, sob a gestão Marchionne, tem menos inibições em relação a opções de produção. Se hoje falar de um SUV/crossover da marca do cavalo ainda parece uma heresia, isso não é o suficiente para se ter certeza de que um dia não veremos quebrado até mesmo esse último tabu…

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Esperando Audi e Aston
 

Rolls-Royce e Bentley não estão sozinhos. Até a Aston Martin quer entrar nesse disputado jogo com o DBX (no alto), conceito de SUV-cupê revelado no Salão de Genebra, em março do ano passado – e que por enquanto é só uma declaração de intenções. Já a Audi não prometeu nada, mas muitos apostam em um Q9 (acima, em nossa ilustração). Para o super-crossover de Ingolstadt, que ficaria acima do Q7, teremos que esperar pelo menos dois anos. Já a versão final do Urus, o SUV da Lamborghini, está quase com sinal verde. Ele se tornaria um rival dentro de casa do Bentayga, já que ambos são estrelas na galáxia do Grupo Volkswagen.