O dia a dia de um jornalista automotivo tem seus privilégios. Dirigir no cotidiano carros que nem foram lançados, dos mais comuns a superesportivos que custam milhões. Pilotar máquinas divertidíssimas nos mais disputados autódromos do mundo. Viajar para diversos países e realizar test-drives em locais exóticos como as dunas do Marrocos e o gelo do Círculo Polar Ártico ou em lugares pitorescos como vilarejos franceses e vilas em praias do nordeste.

Conhecer as últimas novidades automotivas em primeira mão, em salões ainda fechados ao público. Andar sempre de carro zero, sem preocupação com seguro, suspensão, balanceamento, pneus e pastilhas de freio. Os carros da “frota de imprensa” são cedidos em comodato por montadoras e importadoras por períodos que vão de poucos dias a duas semanas, dependendo do modelo e da pauta, então trocamos de carro toda semana.

Disso tudo, obviamente, não reclamamos. Mas essa vida de jornalista automotivo também inclui um ritmo de trabalho insano, com equipes pequenas e uma quantidade enorme de trabalho. E, claro, também vivemos os percalços do cotidiano de um jornalista automotivo. Não são problemas graves, mas são inconvenientes. Para quem tem curiosidade, explico abaixo alguns deles que costumam acontecer nos bastidores dos testes.

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Nenhum carro é seu

A gente conhece muito bem nosso próprio carro. Sabe exatamente o tamanho dele na hora da baliza, o que tem no porta-luvas, o ajuste perfeito dos bancos, etc. Abrimos o porta-luvas e temos guardanapos, comida, CDs, pen-drives… tudo menos luvas. No console, as chaves de casa e do portão do sítio. No porta-malas, mudas de roupas para as crianças, brinquedos, tem de tudo.

Cotidiano de um jornalista automotivo (foto: Nano Banana)
Saudades do seu carro (foto: Nano Banana)

Para quem gosta, também é possível personalizar o visual, mexer no motor, e o carro vira um companheiro. Mas, sendo racional, é dispensável ter carro próprio, na prática, para boa parte dos jornalistas automotivos. Eu fiquei alguns anos sem carro, hoje tenho um que adoro… e isso nos leva ao próximo “sofrimento” do jornalismo automotivo:

Ou seu carro fica abandonado

Claro que também podemos ter nossos carros próprios. Para um imprevisto, porque gostamos. Mas eu, mesmo tendo um, raramente consigo usá-lo. Afinal, dirigir carros de teste não é opcional em nossa profissão, e como são muitos lançamentos para equipes reduzidas, precisamos aproveitar todas as oportunidades de dirigi-los.

Cotidiano de um jornalista automotivo
Falta tempo para usar seu carro próprio (foto: Nano Banana)

Aí o carro fica com uma quilometragem baixíssima, o que também configura uso severo. Você tem que trocar de óleo a cada seis meses, sair com uma frequência mínima para não estragar pneus, bateria e outros componentes… e se questiona se vale mesmo a pena mantê-lo.

A fila do pedágio

Uma coisa bastante irritante é que, enquanto outros motoristas passam direto pelos pedágios, eu preciso parar. Nenhum sistema de pagamento por tag no Brasil permite ser usado em diversos carros diferentes, do modo que eu precisaria. As empresas exigem que se identifique a placa na hora da compra (o que deveria ser revisto: nos EUA, por exemplo, as tags são livres e você ganha desconto usando-as, pois, afinal, está poupando a concessionária da rodovia de contratar mais mão de obra). Então, teoricamente, nós, com os carros de teste, sempre temos que pegar filas.

Cotidiano de um jornalista automotivo
Sem tag, tem que pegar fila (foto: Nano Banana)

Há formas de burlar, mas às vezes elas falham. Usar a tag em carros diferentes às vezes dá certo, às vezes não. Quando não dá, você precisa parar e se explicar para fazer o pagamento (já aconteceu comigo: parei e paguei, depois ainda levei uma multa por evasão). Ou então, se não der para parar, você tem que parar na próxima praça e pagar. Ainda bem que o free-flow vem aí.

Vizinhos desconfiados

Chegar em casa sempre com um carro diferente – zero-quilômetro, às vezes valendo mais que a própria casa ou apartamento – desperta dois sentimentos principais nos vizinhos, nenhum deles bom: o primeiro é a inveja, mas essa você pode simplesmente ignorar. Já o segundo é mais delicado: a desconfiança.

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Os vizinhos ficam desconfiados (foto: Nano Banana)

Por que você está sempre trocando de carro? É algum tipo de criminoso? Golpista? Político corrupto, traficante? Um ou outro pegam mais leve – dono de loja de carros, por exemplo. Mas poucos têm a coragem de perguntar. O melhor é explicar logo, mesmo que eles não perguntem (e antes que o denunciem à polícia ou saiam fofocando pelos elevadores). “Não é meu, trabalho na MOTOR SHOW”, explico. A desconfiança acaba, mas aí vem o próximo percalço:

Consultoria gratuita

Depois que todos seus amigos e vizinhos descobrem que você é “especialista em carros”, isso automaticamente o obriga a aconselhá-los a cada troca de carro. Te param no hall, no elevador, e na garagem para que lhes diga que carro comprar.

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Todos querem uma consultoria grátis (foto: Nano Banana)

O pior é que muitas vezes já estão decididos. Aí você sugere um carro e eles aparecem com outro – aquele que você disse que não valia a pena.Há, ainda, os que reclamam depois, que não gostaram da sua sugestão (e nem ao menos pagaram por ela). Dá vontade de parar o médico do 23 e solicitar uma consulta gratuita ou levar suas questões tributárias para o advogado da cobertura.

Sempre aprendendo

A alavanca dos Mercedes-Benz fica na coluna de direção. Começa a chover e, em vez de ligar o limpador… vvvvrrrrrrraaaaaauuuum… você colocou o carro em ponto morto, acelerou um monte até perceber que está desengatado e perdeu velocidade.

Você devolve o Mercedes, entra no Corolla. Vai engatar o D para sair e o limpador de para-brisa começa a funcionar. Ué, o que aconteceu? E assim seguem as dúvidas: as reduções pela alavanca são para frente ou para trás? O freio de mão é elétrico? Como operar essa central multimídia? Onde conecto o celular?

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Cada carro é um novo aprendizado (foto: Nano Banana)

Hoje alguns carros estão complicando até mesmo o simples ato de ajustar o retrovisor (não é, Volvo e Leapmotor?). Já as alavancas de câmbio automático viraram um pesadelo: com a do BYD Dolphin, que é pequena e confusa (cima/baixo) cheguei a dar uma batida no eletroposto.

Aí você dirige só carros automáticos por um tempão; chega um dos raros de câmbio manual e você, desacostumado, esquece de pisar na embreagem ao parar no sinal. O carro dá aquele pulo para a frente e o motor morre. Barbeiro! Enfim, é preciso aprender tudo de novo a cada carro. Toda hora. Tudo de novo.

O carro certo na hora errada

Você é convidado para um fim de semana na casa de um amigo, na montanha. O caminho tem estradas de terra, normalmente cheia de lama e buracos. Seria uma oportunidade perfeita para testar aquele SUV que você devolveu ontem… mas não com o roadster esportivo que pegou na sexta, tem que devolver na terça e precisa avaliar.

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Nem sempre o carro que você precisa é o que está testando (foto: Nano Banana)

Ele não aguenta cem metros naquela estrada, mas teria sido perfeito na semana anterior, quando você desceu para a praia na serra vazia, com asfalto perfeito. Pior, não dá nem dá para levar os filhos, pois o carro só tem dois lugares.

Não podemos escolher bem quais carros vêm para a redação e quando. Até tentamos nos programar, mas se a vida é cheia de imprevistos, os carros de imprensa, sujeitos a acidentes, devoluções atrasadas, defeitos e revisões demoradas, são mais imprevisíveis ainda. 

Ostentando sem blindagem

Tem carro que todo mundo manda blindar, menos as frotas de imprensa. Estão certas, não faz sentido dar ao jornalista um carro que não está conforme as especificações originais de fábrica. Testamos muitos carros caros que atraem mais assaltantes, sequestradores e cia.

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carro de imprensa nunca é blindado (foto: Nano Banana)

Se aparecer um bandido, você vai ter que convencê-lo que o carro não é seu. Por isso sempre ando com meu crachá. Nos carros mais caros, às vezes até mantenho os vidros abertos – para o ladrão pensar “ou esse cara está armado ou tem escolta de seguranças”. Normalmente funciona, mas nem sempre. O que leva ao próximo percalço ou inconveniência.

Perdas e roubos

Sete óculos escuros, um navegador por GPS portátil, dois guarda-chuvas, chaves de casa, roupas e sapatos da criança, inúmeros CDs e pen-drives com músicas, etc… Já nem sei mais dizer tudo o que já esqueci em carros de teste.

Muita coisa é devolvida pelas assessorias de imprensa, enquanto outras simplesmente somem naquelas poucas horas entre você devolver o carro e perceber que suas coisas ficaram nele. A lição é que não se pode carregar muita coisa pra lá e pra cá. O melhor é nunca deixar nada no carro, tentar concentrar tudo em uma mochila – e não esquecê-la no carro.

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Nossas coisas vão ficando pelos carros (foto: Nano Banana)

Além disso, somos frequentemente vítimas de roubos. Tentando usar locações bacanas para boas fotos, estamos sempre pelas ruas e estradas fazendo nosso trabalho. Nessas operações, já levaram o equipamento fotográfico do fotógrafo, meu smartphone, muita coisa.

Perrengue chique (white people problems)

Se hospedar em hotéis de luxo, voar para todos os cantos do mundo, conhecer vários países… muitos jornalistas – e principalmente “influencers” – adoram se exibir e ostentar esses “benefícios”. Mas há coisas que eles não contam.

São hotéis de luxo onde ficamos por poucas horas e dos quais normalmente aproveitamos só a cama, pois estamos trabalhando o resto do tempo. Voar por todo o mundo significa incontáveis horas em transfers e salas de embarque, atrasos no embarque, imprevistos e voos de 25 horas em classe econômica.

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Viajar pelo mundo não é esse glamour todo (foto: Nano Banana)

Há viagens em que ficamos três noites fora, duas no avião e uma no hotel, virados de jet lag e desejando voltar para casa. É ir da Índia para a Islândia, com uma parada rápida, o trabalho no Brasil atrasado, caçando conexões wi-fi e tentando achar espaço na agenda para organizar e produzir textos, vídeos e etc.

É pouco diante dos problemas do mundo, claro, típicos white people problems. Mas tem hora que é uma dureza, sim. E, depois de dez ou vinte anos, cansa.

Perdido na Tradução (e nos menus)

Avaliar hoje um carro moderno e cheio de tecnologia, especialmente os vindos da China, exige um curso de decifração de enigmas. Com a invasão de telas e sistemas vindos de fora, as traduções são feitas por robôs que não distinguem um componente mecânico de um abajur.

Vou poupar as marcas dessa vergonha, mas, recentemente, eu me deparei com um seletor de modo de direção que oferecia as seguintes opções: “Esporte”, “Normal” ou “Luz”. O chinês (ou o algoritmo) leu “light” e, em vez de entender que era a opção de direção “leve”, achou que o volante ia se iluminar. Você quer sentir e entender o carro, mas o software te entrega poesia abstrata.

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As traduções são sofríveis e os menus, complicados (foto: Nano Banana)

Não anotei todos os erros de tradução, mas eles andam bem frequentes. Outro impagável foi a seleção do equalizador: “jazz”, “pop”, “clássico” e… “pedra” – no caso, se referia ao bom e velho rock/rock’n’roll. Tem um do qual nem lembro, de tão sem sentido, que vinha nos primeiros carros de uma marca chinesa bem grande.

Além disso, com a mania de enfiar todos os comandos na tela central, em cada carro perdemos valiosos minutos tentando entender como navegar nos menus e submenus e encontrar todas as opções e ajustes possíveis. O que me faz lembrar de outro erro de tradução hilário: um menu que, em vez de trazer a opção “sair” (do inglês “quit”), mostrou “desistir”. É, às vezes dá vontade mesmo…

Efeito Cinderela (o maior dos percalços do cotidiano de um jornalista automotivo)

Por fim, um dos mais sofridos para nós, jornalistas automotivos que amamos carros. Imagine, depois de passar alguns dias vivendo o puro prazer ao volante, deslumbramento e a mais absoluta felicidade automotiva, largar um Porsche 911 e pegar um Fiat Mobi ou um Renault Kwid. Você se sente mais ou menos como a Cinderela depois das doze badaladas do relógio.

No fim, aquilo tudo era passageiro, ilusório. Os olhares de admiração nas ruas, o prazer do contato com a estrada e o asfalto, o domínio sobre aquela máquina maravilhosa, a sensação de poder… isso tudo acaba de repente. Você é um simples mortal, que talvez jamais possa comprar, se tiver juízo, um carro daqueles. Mas pelo menos aproveitou ao máximo enquanto pôde.

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Você troca um Porsche 911 por um Fiat Mobi? (foto: Nano Banana)

Nota do autor: Há exatos dez anos, escrevi mais ou menos o que você acabou de ler. Na improvável hipótese de que você tenha lido antes, se lembre e ache repetitivo, peço desculpas. Só achei que, após dobrar minha carreira no setor e ultrapassar a barreira dos mil carros dirigidos, já era hora de eu fazer esta edição revista e ampliada, com base em novas experiências.

Outra nota do autor: Briguei bastante com o Nano Banana e sua alucinações, e fiz o melhor que pude com as ilustrações que ele criou, mas ele ainda manteve algumas… Portanto, pense bem antes de deixar sua vida na mão de um carro autônomo com inteligência artificial.