Primeiras impressões: no VW T-Cross Highline 250 TSI sobra pimenta, mas falta sal

Aceleramos o novo SUV Volkswagen T-Cross na versão de topo Highline. Completa, custa quase o mesmo que o Tiguan Allspace de entrada – ou um Jeep Compass

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Flávio Silveira

A Volkswagen lançou comercialmente seu novo SUV compacto, o T-Cross. Já em pré-venda – as 800 unidades devem se esgotar hoje – ele chega em abril em quatro versões que vão de R$ 84.990 com motor 1.0 TSI e câmbio manual a cerca de R$ 125.000 na Highline com opcionais (confira aqui todos os preços e equipamentos). Foi essa última que aceleramos em um curto test-drive entre a fábrica onde é produzido, em São José dos Pinhais, Paraná, e Balneário Camburiú, em Santa Catarina.

Depois de descer a serra no banco traseiro, foram apenas 65 quilômetros ao volante do VW T-Cross na congestionada rodovia BR-101, no asfalto, sem subidas, sem curvas e sem ultrapassagens. E depois mais 65 no banco do passageiro. Deu  para sentir um pouco do carro e tirar as primeiras impressões.

Design externo

A semelhança da dianteira do VW T-Cross com as dos irmão de plataforma Polo e Virtus é grande, e os Volks não têm se destacado pela ousadia do design, então o T-Cross é meio… sem graça. Elegante, mas não emocionante. Na traseira, com um elemento largo horizontal ligando as lanternas, a coisa fica um pouco mais divertida e diferente. Mas, de modo geral, o que marca é o conservadorismo.

Cabine e equipamentos

De novo, o T-Cross é marcado pela semelhança com os irmãos Polo/Virtus. Quem conhece a dupla não se surpreenderá. A alavanca de câmbio é bem diferente e há uma faixa de acabamento prateado no painel, entre outras pequenas diferenças, para mudar um pouco a cara e  dar um ar mais sofisticado, com relativo sucesso. Mas tanto o painel quanto as portas são de plástico rígido, com couro (ou tecido) só no apoio de braço. Mas ao menos é um plástico que agrada aos olhos. 

A lista de equipamentos é grande, com seis airbags e ESP desde a versão de entrada, e também a de opcionais sofisticados como estacionamento semiautônomo. A central multimídia é a conhecid e excelente Discover (opcional), com sensor de aproximação, conectividade total e recursos  como navegador GPS offline, controle de funções do carro e informações off-road (não existe nem existirá uma versão 4×4). Há, ainda, duas tomadas USB na frente e duas atrás – aliás, quem viaja ali vai bem confortável, como notei na descida de serra. Tem saídas de ar dedicadas e excelente espaço para pernas, graças ao ótimo entre-eixos, e cabeça (já viajar em três atrás fica apertado).

O porta-malas, porém, é um dos pontos fracos do VW T-Cross: acomoda razoáveis 373 litros, contra cerca de 430 nos rivais Honda HR-V, Nissan Kicks e Hyundai Creta (dos mais vendidos, só o Renegade perde: 320 litros). Há opção de aumentá-lo com uma “trava” que deixa o encosto do banco traseiro mais vertical — até demais, praticamente inviabilizando que alguém se sente ali por muito tempo. Só serve  quando o banco não será usado, e aí o porta-malas do T-Cross fica quase igual ao dos rivais: 420 litros.

Ao volante

A posição de guiar do VW T-Cross é notadamente mais elevada que no Polo e no Virtus. Mas você percebe mais pela posição do banco – que, por ser mais alto, deixa o corpo um pouco mais projetado para a frente – do que pela altura do carro em si. Comparado a outros SUVs, a sensação é de estar num modelo mais baixo, mais carro que SUV. Nada muito diferente de um Honda HR-V.

Essa impressão se reforça ao volante. Nosso primeiro contato foi na fábrica, antes do test-drive na estrada, em um pista de testes oval, debaixo de uma tempestade. Em ambiente controlado, pudemos “provocar” o T-Cross com desvios de trajetória, aos quais respondeu com um controle invejável da carroceria, quase sem igual no segmento. E pudemos também testar os freios, que mantêm os discos secos durante a chuva aproximando as pastilhas para melhorar a eficiência. E eles realmente pararam o carro com uma eficiência surpreendente — e a ajuda do ABS, que atuou mais rápido graças à assistência de frenagem hidráulica, que atua quando se pisa mais rápido no pedal.

Depois, na estrada, alguns buracos mostraram que esse acerto “bom de curva”, do T-Cross não significa sacrifício de de conforto. As suspensões, recalibradas para o Brasil, filtraram muito bem as irregularidades do asfalto em muitas partes defeituoso da BR-101 catarinense. É um carro macio sem ser “solto”. Para completar, o isolamento acústico é ótimo — pouco ouvimos das suspensões ou do motor trabalhando.

A curiosidade maior é com o VW T-Cross com motor 1.0, pois esse VW T-Cross 250 TSI, com o 1.4 turboflex de 150 cv e 25,5 kgfm do Golf, entregou exatamente o que já esperávamos: um desempenho impecável, com respostas vigorosas após discreto lag. As trocas de marcha ocorrem normalmente cedo, aproveitando o amplo torque em baixas rotações do 4 cilindros. Mas às vezes as reduções demoram. Na opção manual, as as respostas aos comandos, por aletas no volante ou pela alavanca, são imediatas.

A 100 km/h em estrada limpa, o T-Cross fez excelentes 15 km/l no Eco (há seletor de modo de condução, opcionalmente, para o Highline). Com a estrada mais cheia é andando na faixa de 120 km/h, o consumo caiu para 12 km/l – ainda bom, considerando o tipo de carro, as condições de uso e desempenho proporcionado.

Veredicto

Nesse curto primeiro contato, o VW T-Cross nos pareceu um ótimo carro. Com o motor 1.0 TSI por R$ 95.000 na versão de “entrada” automática, já bem completa, ou R$ 99.990 na Comfortline, não está muito distante do Honda HR-V, um dos mais caros dos concorrentes. E fica muito próximo das versões topo de linha dos rivais, então aparece como uma oferta bastante competitiva.

Já essa versão Highline com o motor 1.4 TSI, que parte de R$ 109.990 e sobe à faixa de R$ 125.000 completa é para poucos. É preço de Jeep Compass, ou quase de um VW Tiguan Allspace básico. Vai agradar aos fãs do antigo Tiguan e aos que curtem uma tocada mais esportiva.

Mas o T-Cross, nessa primeira impressão, pareceu um SUV para quem não gosta tanto  de SUV. No design e ao volante, não dá tanta sensação de “jipinho”. Tudo parece mais próximo de um hatch, mais um crossover… como o Honda HR-V. Mais seguro, mais controlado. Porém há quem prefira estilo e sensações, e a qualquer custo. Às vezes as qualidades na cabeça racional dos engenheiros viram problemas na cabeça do consumidor que faz uma compra mais emocional.

Para quem demorou tanto para lançar um SUV nacional, a Volkswagen caprichou na receita. Caprichou na tecnologia, no espaço, no consumo, na segurança. E, nesse topo de linha VW T-Cross 250 TSI, caprichou principalmente na pimenta, fazendo um SUV para quem gosta da pegada de hatch, de esportivo… e talvez não tanto de utilitários-esportivos. Para o cliente que gosta mesmo é do “lado SUV” de um SUV, com o que isso pode ter de bom e de ruim, a primeira impressão é que faltou um pouquinho de sal.

Leia mais sobre o T-Cross na MOTOR SHOW de março.

FICHA TÉCNICA

VOLKSWAGEN T-CROSS
Preço básico: R$ 84.990
Carro avaliado: R$ 121.840

Volkswagen T-Cross Highline 250 TSI
Motor: 4 cilindros em linha 1.4, 16V, turbo, injeção direta
Cilindrada: 1395 cm3
Combustível: flex
Potência: 150 cv a 5.000 rpm (g) e 150 cv de 4.500 a 6.000 rpm /e)
Torque: 25,5 kgfm de 1.500 a 3.800 rpm (g) e 25,5 kgfm de 1.500 a 4.000 rpm (e)
Câmbio: automático sequencial, seis marchas
Direção: elétrica
Suspensão: MacPherson (d) e eixo de torção (t)
Freios: disco ventilado (d) e disco sólido (t)
Tração: dianteira
Dimensões: 4,199 m (c), 1,760 m (l), 1,568 m (a)
Entre-eixos: 2,651 m
Pneus: 205/55 R17
Porta-malas: 373 a 420 litros
Tanque: 52 litros
Peso: 1.292 kg
0-100 km/h: 8s7 (g/e)
Velocidade máxima: 198 km/h (g/e)
Consumo cidade: 11 km/l (g) e 7,7 km/l (e)
Consumo estrada: 13,2 km/l (g) e 9,3 km/l (e)
Emissão de CO2: n/d
Nota do Inmetro: B*
Classificação na categoria: C (utilitário esportivo compacto)*
*estimados