Quem vê cara não vê coração

A grade dianteira com várias entradas de ar verticais é comum nos modelos da Jeep. Apesar de vistosas, não foram elas que causaram polêmica no visual do novo Cherokee. O que realmente dividiu os fãs foram os faróis. Ao contrário dos enormes conjuntos óticos que avançam sobre a carroceria, comum em quase todos os carros, os designers da Fiat Chrysler Automobiles (dona da marca Jeep) decidiram utilizar três pequenos conjuntos divididos pela carroceria. O de cima (onde normalmente fica o farol) foi reservado para o pisca-pisca e a luz de LED, que formam um conjunto alongado e fino. O do meio (que parece uma luz auxiliar) é o verdadeiro farol, com luzes de duplo xenônio, mas com um desenho incomum, quase escondido dentro do para-choque. E o de baixo, já na parte de plástico do para-choque, é o farol de neblina. O resultado foi espantoso – difícil saber se esse estilo vai pegar.

O novo Jeep Cherokee é muito mais do que uma cara diferente (inclusive em relação ao Grand Cherokee). O carro foi totalmente modificado nessa quinta geração. Ganhou muitos atributos de conforto e conveniência, para conquistar um público mais amplo, e manteve sua velha aptidão para enfrentar terrenos difíceis. Mas, calma, isso não é característica de todas as versões. Portanto, é bom explicá-las. A única versão que está à venda no Brasil (e foi avaliada por MOTOR SHOW em terrenos difíceis do interior paulista) é a Limited. O nome já diz tudo: o carro é limitado para certas aventuras. Essa versão intermediária custa R$ 174.900 e deve ser a mais vendida (60% do mix). A próxima a chegar, talvez ainda antes do Salão de São Paulo (30/10 a 9/11) será a versão Longitude, de entrada, que deve responder por 30% das vendas e sairá por R$ 159.900. E antes do fim do ano chegará a mais aventureira das versões, a Trailhawk, por R$ 189.900, que tem uma previsão de vender apenas 10% do mix. O volume anual previsto para o novo Cherokee no Brasil é de 1.200 unidades, importadas dos Estados Unidos. 

Das três versões, só a Trailhawk tem o selo “trail rated”, que é recebido pelos poucos carros que conseguem fazer as dificílimas trilhas de Utah, EUA. Por causa disso, o novo Jeep Cherokee chega ao Brasil com o lema “vá a qualquer lugar, faça qualquer coisa”. Segundo o diretor da Marca Jeep, Brad Pinter, “esse é o SUV médio mais capaz em todo o mundo”. A Chrysler considera que 100% dos clientes Jeep têm o off-road na cabeça. Mas não necessariamente o praticam. Por isso, o Cherokee ficou mais dócil nas versões mais acessíveis. Tanto a Limited avaliada quanto a Longitude têm 4×4 disponível, mas elas rodam a maior parte do tempo em 4×2, pois o sistema Active Drive I, no modo “on road”, mantém a tração só no eixo dianteiro. Já a TrailHawk vem com o Active Drive Lock, que tem tração integral, reduzida e bloqueio do diferencial traseiro. 

O novo Cherokee recebeu mais de 60 itens de segurança e conveniência. O modelo faz parte da arquitetura CCUSW (Common Compact US Wide) e é o primeiro resultado completo da parceria tecnológica entre a Chrysler e a Fiat. O motor é o mesmo para as três versões. Trata-se do ótimo bloco Pentastar 3.2 V6 de 271 cv de potência e 32,1 kgfm de torque. O câmbio é automático de nove marchas, deixando o carro muito suave nas acelerações. Segundo o Inmetro, o novo Cherokee tem uma autonomia média de 9,4 km/l na estrada. 

O casamento desse conjunto foi muito bom. Na estrada, o carro mostrou um desempenho agradável, com boas respostas ao acelerador. A suspensão tipo maria-mole denuncia o gosto americano pela maciez e tornou o rodar bastante confortável, para atender o novo público que a marca pretende atingir. Os trechos off-road que enfrentamos não eram radicais, de maneira que o Cherokee Limited superou-os sem grande dificuldade. Mesmo no sistema Active Drive I é possível selecionar o tipo de tração mais adequado para cada terreno: Auto (detecta a necessidade de 4×4), Sport (limita a ação do controle eletrônico de tração), Snow (para neve) e Sand/Mud (para areia ou lama). Além de distribuir a tração para as quatro rodas quando necessário, o modo Auto ajuda a corrigir eventuais saídas de frente (subesterço) ou de traseira (sobreesterço) no asfalto, caso o motorista entre muito forte em uma curva. No Active Lock Drive existe até um modo Rock (pedra), para ultrapassar os mais incríveis obstáculos. A versão Trailhawk também conta com controle de velocidade em descidas muito íngremes. Essa versão usa pneus off-road 245/65 R17. A Limited (225/55 R18) e a Longitude (225/60 R17) utilizam pneus de uso misto. 

A lista de equipamentos é grande. Além dos itens já citados, o Cherokee Limited traz assistente de partida em rampas, controles de tração, de estabilidade e de rolagem da carroceria, lanternas traseiras de LED e câmera de ré. Internamente, tem ainda sistema multimídia com tela de 8,4”, caixa de primeiros socorros embaixo do banco do motorista, bancos com aquecimento e ventilação (muito boa em dias quentes, por sinal), ar-condicionado de duas zonas com memória, bancos e volante de couro e quadro de instrumentos em tela de 5”. O interior do novo Cherokee foi inspirado em lugares, como Marrocos, Islândia, Vesúvio e Grand Canyon. 

Resta agora saber se os consumidores terão a mesma empolgação que os executivos da Jeep. A marca vive um ótimo momento, vendeu 731.000 carros em 2014 e este ano (até agosto) já ultrapassou a barreira de 800.000 veículos. Nos últimos seis anos, a Jeep lançou cinco novos modelos, realizou oito face-lifts e produziu 47 séries especiais. Talvez por isso digam: “Você não dirige Jeep… você vive Jeep”.