Renault Oroch: entre picaponas e picapinhas

Divulgação

Há tempos há um vazio no mercado entre o mundo das picapinhas e o das picaponas. Um vazio não só de preço, mas também de porte. Quem hoje precisa ou deseja ter uma picape capaz de levar mais de dois passageiros tem de optar pelas versões cabine dupla de Fiat Strada ou VW Saveiro – ou então saltar para as médias (mas grandalhonas) S10, Ranger, Hilux e cia. Foi justamente nesse vazio que a Renault enxergou um novo e potencialmente muito lucrativo nicho de mercado, que será explorado em breve também pela Fiat, como adiantamos há um ano, e, mais adiante, pela Hyundai (leia texto “Ela não estará só” ao final da reportagem). Usando como base o conhecido e bem-sucedido crossover Duster, a Renault criou a picape Duster Oroch, exibida como conceito no último Salão do Automóvel de São Paulo e agora, no Salão de Buenos Aires, em sua versão definitiva de produção.

O problema para o consumidor hoje é que enquanto as tradicionais picapinhas cabine dupla têm preços que vão de cerca de R$ 50.000 a R$ 70.000, as picaponas de motor flex e cinco lugares partem da faixa de R$ 90.000/100.000. E aí, portanto, se você precisa de uma caçamba, mas não necessita carregar uma tonelada e não quer gastar muito dinheiro nem dirigir no dia a dia um veículo pouco confortável e com mais de cinco metros de comprimento, tem que conviver com o pouco espaço na cabine das picapinhas, principalmente para quem viaja no banco traseiro – que ainda tem acesso ruim pela falta das quatro portas (mesmo a Fiat Strada, com uma terceira porta, não é a solução ideal).


Exibida na Argentina (à esq.), a Oroch será produzida no Paraná. O país vizinho ficará encumbido de fabricar uma picape maior, para brigar com S10 e cia., que chega em 2017

A Oroch solucionará esse problema oferecendo caçamba com 1,35 m de comprimento e capacidade de 650 kg ou 683 litros – bastante similar à da Strada e da VW Saveiro –, mas com uma cabine de quatro portas, com janelas de verdade e espaço interno igual ao do Duster, capaz de acomodar uma família com bastante conforto. Isso porque dimensionalmente, enquanto Strada e Saveiro ficam na faixa de 4,5 m de comprimento e 2,75 m de entre-eixos, e Ranger, S10 e cia. têm mais de 5,20/5,30 m de comprimento e 3,10/3,20 m de entre-eixos, a Oroch terá cerca de 4,70 m de comprimento e 2,82 m de entre-eixos. É uma média compacta, portanto – como as S10 e Ranger de algumas gerações atrás.

O melhor de tudo é que assim como a Oroch fica no meio do caminho em tamanho, ficará também em preço. Por motivos estratégicos, os valores ainda não foram totalmente definidos, mas conforme apuramos junto às nossas fontes, a Oroch partirá exatamente do valor cobrado pelas atuais picapinhas nas versões intermediárias equipadas/topo de linha: R$ 65.000, com o motor 1.6 flex de 110/115 cv e câmbio manual de cinco marchas, subindo para cerca de R$ 68.000 com o 2.0 flex de 143/148 cv e transmissão manual de seis marchas e chegando a R$ 72.000 na versão mais equipada.


A caçamba acomoda 683 litros ou cerca de 650 kg. Santantônio e estribos laterais dão à Oroch uma aparência bastante robusta

No ano que vem, a marca lança as versões 2.0 automática de quatro velocidades (cerca de R$ 71.000), 4×4 manual de seis marchas (em torno de R$ 75.000) e, provavelmente, 4×4 automática (exclusiva da picape). Mas o verdadeiro pulo do gato é que, por ser construída com monobloco como as picapinhas, ela acaba sendo mais leve, mais econômica e mais confortável do que as primas grandalhonas – que têm carroceria montada sobre chassi – e quase tão alta quanto elas. E é bom deixar claro que a Renault não só “cortou” uma caçamba no Duster (não que faltasse robustez ao crossover).

O entre-eixos foi aumentado e a suspensão traseira foi totalmente retrabalhada para a nova distribuição de massa (e é sempre independente do tipo multilink, como no Duster 4×4, e não de feixe de molas; isso garantirá bom comportamento em curvas e muito conforto). A tração básica é dianteira como nas picapinhas, outra vantagem em relação às grandalhonas 4×2, que, com pouco peso apoiado sobre o eixo motriz traseiro, “atolam” até em gramados. Mesmo nas versões sem 4×4, ter o peso do motor sobre o eixo de tração garante melhor capacidade para enfrentar estradinhas de terra e off-road “light” (os pneus são de uso misto, e as rodas têm aro 16).


O interior é igualzinho ao do Duster: espaçoso, mas com acabamento simples demais, posição de guiar razoável e central multimídia/GPS fora do campo de visão do motorista

Já para desafios maiores, a solução será a versão com tração nas quatro rodas – com o mesmo sistema do Duster, que tem um botão para selecionar 4×2, 4×4 e 4×4 com bloqueio do diferencial. Já o interior, pena, não muda. Continuam ali o acabamento simples demais, mesmo com as melhorias recentes, a posição de dirigir que não é das melhores (mas que também não é nenhum grande destaque da Strada ou da Saveiro) e a central multimídia/GPS com tela muito baixa – embora com boa interface e recursos interessantes, como o Eco-Scoring (que ensina a dirigir economicamente), e as informações de trânsito.

Na lista de equipamentos, algumas versões ainda terão sensor de estacionamento e ar-condicionado automático. No fim, a Duster Oroch tem potencial até mesmo para roubar clientes das grandonas flex com tração 4×2, mas seus principais alvos – e, portanto, as mais prejudicadas pela sua chegada – serão mesmo as picapinhas Strada e Saveiro. Mais espaçosa, mais alta, com quatro portas e preço extremamente competitivo, ela tem tudo para bombar no mercado.

—–

Ela não estará só

A Renault Oroch chega como primeira picape monobloco baseada em um crossover/SUV, mas logo ganhará companhia. Como adiantamos há um ano, a Fiat Chrysler Automobiles vai fabricar em Goiana (PE) uma picape com o mesmo conceito, usando a plataforma small-wide 4×4 do Jeep Renegade e com design baseado no carro-conceito FCC4. Previsto inicialmente para este ano, ela pode ficar para o início de 2016 por conta da crise, e, a exemplo do jipinho, terá opção de motor a gasolina ou a diesel. Outra marca que vai entrar nessa disputa é a Hyundai, que disse que há “90% de chances” de produzir a picape baseada no conceito Santa Cruz do Salão de Detroit deste ano, com plataforma da nova geração do ix35.

Veja também

+ iPhone 12: Apple anuncia quatro modelos com preço a partir de US$ 699 nos EUA

+ Veja mudanças após decisão do STF sobre IPVA

+ T-Cross ganha nova versão PCD; veja preço e fotos

+ Tomografia revela que múmias egípcias não são humanas

+ Homem compra Lamborghini após fraude em auxílio emergencial

+ Restaurar um carro: quanto custa e quanto ele pode valorizar