Polo e Argo destroem mercado do Sandero e já ameaçam HB20 e March

Com o novo padrão de qualidade imposto pelo Volkswagen Polo e pelo Fiat Argo ao segmento de hatches pequenos, a Renault, a Hyundai e a Nissan entram em estado de alerta

Novo Polo: modelo da Volks cresce nas vendas, rompe a barreira dos 4.000 carros/mês e tira a paz do Sandero (Foto: VW)

Apesar do crescimento de 10,9% nas vendas de automóveis de passeio em 2017, a chegada de novos modelos ao mercado afetou alguns carros. Por isso, nem todas as marcas estão sorrindo quando olham para o desempenho comercial dos hatches pequenos, o segmento que mais vende no Brasil (26,9% contra 22% dos SUVs e 20,6% dos veículos de entrada). Dois movimentos importantes – os lançamentos do Fiat Argo e do Volkswagen Polo – assustaram a Renault e ameaçam também a Hyundai e a Nissan.

E não estamos falando de carros pouco importantes. A grande vítima da entrada da dupla Polo/Argo no mercado foi o Sandero, um peso-pesado na estratégia comercial da Renault, pois está entre os 10 carros mais vendidos do País. Num período curtíssimo, de junho a novembro, o Sandero perdeu 40,9% das vendas.

Podemos dividir o mercado de hatches pequenos este ano em três períodos: a.A. (antes do Argo), a.P. (antes do Polo) e d.A.P. (depois do Argo e do Polo). Analisamos os números de venda de todos os carros desse segmento, considerando para início dos períodos citados o segundo mês de vendas do Argo e do Polo, pois foi quando entraram no ritmo normal. Por outro lado, o líder da categoria e tricampeão de vendas do Brasil, o Chevrolet Onix, não foi afetado. Da mesma forma, o Ford Fiesta e o Peugeot 208 seguiram sua vida normal, registrando até crescimento em alguns períodos. Portanto, vamos focar nossa análise no estrago que a dupla Polo/Argo fez nas vendas do Sandero, do HB20 e do March.

Períodos a.A. (antes do Argo) e a.P. (antes do Polo)

A vida estava muito tranquila para o trio Sandero/HB20/March nos primeiros seis meses do ano. A média de vendas do Renault Sandero foi de 6.476 carros/mês, a do Nissan March foi de 1.377 e a do Hyundai HB20 foi de 8.525, o que lhe garantiu uma folgada vice-liderança no mercado.

Já com o Fiat Argo nas ruas, mas ainda sem o Volkswagen Polo, o HB20 não teve com o que se preocupar. Além de manter sua boa performance, chegou a crescer, passando para 9.274 vendas/mês de média. O Sandero, entretanto, começou a dar sinais de queda na preferência do consumidor e caiu para 5.194 vendas/mês, um recuo de 19,8%. Porém, a pior queda foi a do March, que desabou 35,3%, batendo na média de 891 vendas/mês.

Período d.A.P. (depois do Argo e do Polo)

Para esse período, consideramos as vendas de novembro e dezembro (com uma projeção em relação aos primeiros 15 dias de venda já registrados). Assim, se o ritmo continuar como o da primeira quinzena de dezembro, o Argo fechará o último bimestre do ano com uma média de 5.210 vendas/mês, enquanto o Polo ficará com 4.055 vendas/mês. São bons números, mas eles ainda podem crescer bastante, pois os dois carros estão em alta.

Quanto ao March, conseguiu uma pequena recuperação e passou à média de 911 vendas/mês, porém ainda distante dos 1.377 do período a.P. Do lado do HB20, houve um mês atípico e a média caiu para 7.126 vendas/mês, que é o seu patamar mais baixo em muito tempo – mas ainda é cedo para tirar conclusões. A maior queda foi mesmo do Sandero. Ele despencou para 3.828 vendas/mês, um número muito estranho para quem se acostumou a ver o hatchback da Renault sempre dois ou três milhares acima. Que estaria acontecendo com o Sandero?

Com preço de entrada de R$ 43.900, o Sandero 1.0 só é mais caro que o HB20 1.0 (R$ 43.300), mas ainda guarda boa distância para o Argo 1.0 (R$ 46.800) e para o Polo 1.0 (R$ 49.990). Porém, verdade seja dita, os dois novos carros trazem algumas tecnologias não disponíveis no modelo da Renault, ambos são mais bonitos e, dinamicamente, mostram-se muito superiores. O Renault Sandero, na verdade, é um modelo da marca romena Dacia, rebatizado no Brasil. Isso nunca foi problema, pelo menos por enquanto.

Quando vamos para as versões 1.6, a situação do Sandero torna-se menos competitiva. Ele parte de R$ 52.750, quando o Polo com essa motorização custa R$ 54.990. A diferença de preço é pequena para uma diferença muito maior na qualidade dos carros. O Argo não tem versão 1.6, mas sim 1.3, com preço inicial de R$ 53.900. Enquanto o Sandero não tem mais nada para oferecer, a não ser suas boas versões esportivas 2.0 (um nicho com poucas vendas), o Argo ainda tem suas configurações 1.8 (a partir de R$ 61.800), enquanto o Polo e o HB20 exibem versões 1.0 turbinadas, com preços de R$ 65.190 e R$ 50.780, respectivamente. No caso do Volkswagen, trata-se de um motor de alta eficiência, combinando como poucos a entrega de potência e torque com a economia de combustível.

Outro fator pode ter contribuído para a inesperada queda de vendas do Sandero: o lançamento do pequenino Kwid. Não é segredo para ninguém que a Renault gastou bastante energia e dinheiro no lançamento do Kwid. Nesses casos, é comum que outro modelo seja prejudicado. Entretanto, algo incomum está acontecendo com o Kwid, pois suas vendas estão muito baixas (3.000 carros/mês), depois de um início arrasador, com mais de 10 mil emplacamentos. Uma possibilidade é que a Renault esteja segurando a venda de seus carros menos eficientes por causa das médias necessárias para não pagar multa nessa fase final do Inovar-Auto (quem não cumprir as metas energéticas pagará mais IPI a partir de 2018).

O tempo vai dizer o que se passa com os Renault Sandero e Kwid. Mas uma coisa é certa: o Volkswagen Polo e o Fiat Argo mexeram positivamente com o mercado. Tanto que a Nissan já tem um avançado projeto para a produção de seu novo March, que não será o mesmo modelo a ser lançado na Europa, mas uma solução brasileira mesmo, porém com upgrades importantes em relação ao carro atual.