Quem passou pelos pavilhões do Salão de Detroit em 2026 percebeu rápido que algo havia mudado. Depois de anos em que os carros elétricos dominaram discursos, estandes e anúncios grandiosos, a edição deste ano foi marcada por uma presença bem mais discreta dos modelos 100% elétricos. Em contrapartida, picapes, SUVs tradicionais e motores a combustão voltaram a ocupar o centro do palco. 

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Salão de Detroit de 2026 – Crédito: AP Photo/Jose Juarez

Tem motivos

A ausência de grandes lançamentos elétricos não foi um acaso nem uma simples escolha estética das montadoras. O movimento reflete uma leitura mais cautelosa do mercado norte-americano, que entrou em 2026 com sinais claros de desaceleração na demanda por veículos elétricos: o crescimento de 2025 frente a 2024 foi de apenas 1%, número bem abaixo de outros anos anteriores. Enquanto isso, marcas locais como a Tesla, marcaram queda: a empresa de Elon Musk, por exemplo, teve retração de 8,5% nas vendas globais.  

Tesla Model 3 Standard – Foto: divulgação

Parte desse freio tem relação direta com mudanças no ambiente político e econômico dos Estados Unidos. Incentivos federais que garantiam subsídios de até US$ 7.500 para a compra de carros elétricos foram reduzidos ou deixaram de existir, tornando esses modelos menos competitivos em preço. O impacto foi imediato tanto no consumidor quanto nas estratégias das fabricantes, que passaram a rever cronogramas, volumes e investimentos. Parte delas, inclusive, diminuiu contratos com fornecedoras de baterias, por exemplo, indicando um panorama mais neutro.  

Estande da Ford no Salão de Detroit de 2026 – Crédito: AP Photo/Jose Juarez

Montadoras tradicionais, como Ford e General Motors, chegaram ao Salão de Detroit em um momento de ajustes internos. Após investimentos bilionários em programas de eletrificação que não entregaram o retorno esperado no curto prazo, as empresas adotaram um discurso mais pragmático. A eletrificação segue nos planos, mas sem o mesmo tom urgente de anos anteriores. O foco, agora, é equilibrar portfólio, custos e rentabilidade.  

Bons exemplos

Ford F-150 Lightning totalme te elétrica – Foto: divulgação

Bom exemplo é a Ford F-150 Lightning, que saiu de linha na versão puramente elétrica para dar lugar a outra, de autonomia estendida (com motor a combustão atuando como gerador). Outro é o do Dodge Charger, coupé esportivo, que havia aposentado os motores a combustão em 2023, trocando por versões apenas elétricas, e agora em 2025 voltou atrás, oferecendo também versões a gasolina. Isso lhe rendeu o prêmio de carro do ano de 2026 por lá, numa premiação do próprio Salão de Detroit. 

Dodge Challenger com motor a gasolina – Foto: divulgação

Poucos elétricos no Salão de Detroit

Isso também ficou evidente nos estandes do Salão de Detroit em 2026. Em vez de elétricos ocupando posições centrais, o evento de Detroit foi dominado por picapes de grande porte, SUVs robustos e esportivos com motores a combustão. Um retrato bastante fiel do gosto do consumidor americano e daquilo que, hoje, ainda sustenta o caixa das marcas no mercado local.

Cadillac Elevated Velocity Concept – Foto: divulgação

Nos planos futuros expostos no Salão, apenas dois elétricos brilharam: o Corvette elétrico (batizado de CX) e o Cadillac Elevated Velocity, um crossover, ambos na pura fase de conceito, sem datas nem previsões de chegarem ao mercado. As demais grandes novidades anunciadas incluem um motor a combustão de alguma forma, esteja ele tracionando o carro ou não. 

Chevrolet Corvette CX Concept – Foto: divulgação

Mudança temporária de rota

O Salão de Detroit 2026, portanto, não representa o fim da eletrificação, mas talvez uma mudança momentânea de rota. A indústria parece reconhecer que a transição energética não acontece em linha reta e que o mercado norte-americano tem ritmo, prioridades e limitações próprias.