22/01/2026 - 17:00
Quem passou pelos pavilhões do Salão de Detroit em 2026 percebeu rápido que algo havia mudado. Depois de anos em que os carros elétricos dominaram discursos, estandes e anúncios grandiosos, a edição deste ano foi marcada por uma presença bem mais discreta dos modelos 100% elétricos. Em contrapartida, picapes, SUVs tradicionais e motores a combustão voltaram a ocupar o centro do palco.
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Tem motivos
A ausência de grandes lançamentos elétricos não foi um acaso nem uma simples escolha estética das montadoras. O movimento reflete uma leitura mais cautelosa do mercado norte-americano, que entrou em 2026 com sinais claros de desaceleração na demanda por veículos elétricos: o crescimento de 2025 frente a 2024 foi de apenas 1%, número bem abaixo de outros anos anteriores. Enquanto isso, marcas locais como a Tesla, marcaram queda: a empresa de Elon Musk, por exemplo, teve retração de 8,5% nas vendas globais.

Parte desse freio tem relação direta com mudanças no ambiente político e econômico dos Estados Unidos. Incentivos federais que garantiam subsídios de até US$ 7.500 para a compra de carros elétricos foram reduzidos ou deixaram de existir, tornando esses modelos menos competitivos em preço. O impacto foi imediato tanto no consumidor quanto nas estratégias das fabricantes, que passaram a rever cronogramas, volumes e investimentos. Parte delas, inclusive, diminuiu contratos com fornecedoras de baterias, por exemplo, indicando um panorama mais neutro.

Montadoras tradicionais, como Ford e General Motors, chegaram ao Salão de Detroit em um momento de ajustes internos. Após investimentos bilionários em programas de eletrificação que não entregaram o retorno esperado no curto prazo, as empresas adotaram um discurso mais pragmático. A eletrificação segue nos planos, mas sem o mesmo tom urgente de anos anteriores. O foco, agora, é equilibrar portfólio, custos e rentabilidade.
Bons exemplos

Bom exemplo é a Ford F-150 Lightning, que saiu de linha na versão puramente elétrica para dar lugar a outra, de autonomia estendida (com motor a combustão atuando como gerador). Outro é o do Dodge Charger, coupé esportivo, que havia aposentado os motores a combustão em 2023, trocando por versões apenas elétricas, e agora em 2025 voltou atrás, oferecendo também versões a gasolina. Isso lhe rendeu o prêmio de carro do ano de 2026 por lá, numa premiação do próprio Salão de Detroit.

Poucos elétricos no Salão de Detroit
Isso também ficou evidente nos estandes do Salão de Detroit em 2026. Em vez de elétricos ocupando posições centrais, o evento de Detroit foi dominado por picapes de grande porte, SUVs robustos e esportivos com motores a combustão. Um retrato bastante fiel do gosto do consumidor americano e daquilo que, hoje, ainda sustenta o caixa das marcas no mercado local.

Nos planos futuros expostos no Salão, apenas dois elétricos brilharam: o Corvette elétrico (batizado de CX) e o Cadillac Elevated Velocity, um crossover, ambos na pura fase de conceito, sem datas nem previsões de chegarem ao mercado. As demais grandes novidades anunciadas incluem um motor a combustão de alguma forma, esteja ele tracionando o carro ou não.

Mudança temporária de rota
O Salão de Detroit 2026, portanto, não representa o fim da eletrificação, mas talvez uma mudança momentânea de rota. A indústria parece reconhecer que a transição energética não acontece em linha reta e que o mercado norte-americano tem ritmo, prioridades e limitações próprias.
