O Salão de Pequim 2026 — ou Auto China 2026 — não é apenas mais um evento automotivo: virou uma demonstração de poder do gigante asiático no setor automotivo. E podemos dizer que o tema principal é a grandeza, em todos os sentidos.

Com uma área de 380.000 m², unindo o novo Centro de Exposições Capital ao complexo de Shunyi, ele será o maior salão de automóveis já realizado no planeta — e a MOTOR SHOW está em Pequim para acompanhar a mostra de perto e trará mais informações aqui no site.

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Os números impressionam: 1.451 veículos em exibição, com 181 estreias mundiais e 71 carros-conceito, 212 coletivas de imprensa agendadas apenas nos dois primeiros dias, mais de 30 fóruns simultâneos e presença de centenas de empresas de 24 países e público esperado de centenas de milhares de pessoas até o dia 3 de maio.

Depois do Salão de Pequim, ainda vamos conhecer o quartel-general do Grupo Chery e as novidades da Omoda Jaecoo, marcas que já atuam no Brasil — e, curiosamente, aparecem pela primeira vez no Salão de Pequim, pois foram criadas apenas para exportação, que não vendem carros na China.

JAECOO 5 SHS-H
JAECOO 5 SHS-H (divulgação)

Brasil no centro do furacão

Enquanto o mundo olha para a China, o Grupo Chery (líder em exportações há 23 anos), olha para o Brasil. Além de mostrar os novos Jaecoo 5 (vou guiar aqui na China) e Omoda 4 — que muito interessam aos brasileiros, pois chegarão com preços agressivos para desafiar SUVs compactos tradicionais, estimamos que abaixo de R$ 160 mil e de R$ 140 mil, respectivamente —, ainda vai usar o salão para “pré-lançar” em nosso mercado sua mais nova marca: a Lepas (leia mais aqui).

Salão de Pequim Lepas L6
Lepas L6 (divulgação)

Além disso, fabricantes como BYD, Geely, GWM, MG Motors, Jetour (mais uma do grupo Chery) e Changan (agora associada à Caoa no Brasil), entre outras, devem apresentar mais novidades (como a nova geração do Yuan Plus) e/ou anunciar a venda no mercado brasileiro de modelos já existentes aqui na China. Vamos acompanhar tudo e contar aqui.

SUVs elétricos tamanho GG

O mercado chinês agora é movido por troca e upgrade de clientes. Quem não oferece um SUV elétrico gigante de três fileiras e seis lugares está de bobeira. Na China, o segmento saltou de 20 mil para mais de 100 mil unidades anuais.

São carros com baixíssimas chances de chegar ao Brasil, mas que aparecerão em grande número na mostra, como NIO ES9 e o ES8 (líder de vendas por 4 meses seguidos), Li Auto L9/L8, Aito M9 e os Volkswagen exclusivos dos chineses, como ID. ERA 9X, ID.Unyx 08, ID.Unyx 09 Concept e AUDI E7X.

VW ID.Unyx 08
VW ID.Unyx 08 (divulgação)

Entre outros destaques que estarão no Salão de Pequim, podemos citar Wey V9X (marca já no Brasil), Arcfox Wendao V9, Luxeed V9, Yijing X9, Leapmotor D19/D99 (marca já no Brasil), Xpeng GX, BYD Great Tang, BYD Sealion 08, Aistaland GT7, Shangjie Z7/Z7T, Onvo L80, Zeekr 8X (marca já no Brasil), Nissan NX8, Voyah Taishan 8, IM LS8 e Cadillac Vistiq (modelo já confirmado para o Brasil).

AUDI E7X (foto: Flávio Silveira)

Ecossistema Huawei e novas marcas

A Huawei tornou-se o motor fundamental da indústria. Ela agora gerencia as marcas Hima (Harmony Intelligent Mobility Alliance): Aito, Luxeed, Stelato, Maextro e Shangjie — ao menos por enquanto, nenhuma delas tem planos para o Brasil.

Além disso, surgiram novas marcas “do nada” desde o último China Auto Show, realizado em Xangai (as duas cidades revezam o evento): Aistaland, Yijing, Huajing, Freelander (ex-Land Rover, agora mais uma marca da Chery; leia mais aqui), e Linghui (marca de baixo custo da BYD que seria interessante para nosso mercado).

A Huawei está fornecendo desde o sistema operacional HarmonyOS até o avançado sistema de direção Qiankun ADS 4.1, equipando inclusive modelos estrangeiros como o Nissan Teana e Audi A6L e-tron.

plataforma LEX dos Lepas 4 e Lepas 6
Plataforma modular LEX dos modelos da Lepas (divulgação)

Inteligência Artificial e “Guerra dos LiDARs”

A era do VLA (Vision-Language-Action) chegou. A Xpeng lidera com o VLA 2.0, alegando ser o único sistema chinês capaz de rivalizar com o FSD da Tesla, com potencial de autonomia nível 4.

  • Chips próprios: NIO (Shenji), Xpeng (Turing) e Li Auto (Mach 100) estão fabricando seus próprios chips para que não dependam apenas de NVIDIA e Qualcomm.
  • Sensores: A competição nos LiDARs escalou: o sensor EM4 da RoboSense foi superado pelo Hesai 6D. O custo caiu tanto que a Leapmotor agora oferece LiDAR em carros populares de 90 mil RMB (equivalente a R$ 65 mil).

Baterias: o desafio dos 1.300 quilômetros

A batalha entre BYD e CATL, as gigantes da produção de baterias, será um dos destaques do Salão de Pequim. A BYD traz a 2ª geração da bateria Blade e carregamento em menos de dez minutos. A CATL responde com a bateria Shenxing 15C e tecnologias de estado sólido.

O CEO da Xiaomi, Lei Jun, provou a maturidade da tecnologia ao dirigir um Xiaomi SU7 por 1.313 km (Pequim a Xangai) parando apenas uma única vez para carregar. O próximo passo, que pode ser anunciado pela CATL ou BYD neste salão, é fazer essa viagem sem nenhuma parada.

Geopolítica e “preços padrão chinês”

O Salão de Pequim 2026 ocorre sob uma tensão global sem precedentes (guerras no Irã e Ucrânia e a iminente cúpula Xi-Trump). Enquanto os EUA tentam bloquear carros chineses, o resto do mundo — destaque para Brasil e Europa — vem sendo gradualmente dominado por eles.

No Brasil, marcas como Omoda, Jaecoo, BYD e Geely crescem de modo assustador — a Anfavea, que reúne as fabricantes tradicionais, que o diga: com produtos cheios de tecnologia e preços baixos, está cada vez mais difícil competir com elas.

Assim, empresas como Stellantis, Chevrolet e Renault já andam lançando novos produtos, muitos deles chineses com planos de produção nacional ou com operações já em andamento a toque de caixa, de modo emergencial, na base do SKD ou CKD (montagem), para segurar a onda das chinesas.

ultra-híbrido Teste de consumo Leapmotor C10 REEV
Leapmotor C10 REEV 2026 (foto: Flávio Silveira)

A Stellantis vai fazer modelos Leapmotor em Goiana, a Chevrolet vai montar o Spark no Ceará, a Renault se associou à Geely para produzir EX5 e EX2 no Paraná, a GAC vai fabricar em Catalão e por aí vai…

dianteira do Geely EX5 EM-i 2026
Geely EX5 EM-i 2026 (foto: Flávio Silveira)

Isso mesmo: sem ter muitas outras opções de reação diante das táticas e dos preços das marcas chinesas, usam as mesmas armas delas na luta por sua sobrevivência: carros de origem chinesa. E o gigantismo do Salão do Pequim 2026 é apenas mais uma prova do poder chinês no mercado automotivo mundial.