O Santa Matilde SM 4.1 é um daqueles esportivos nacionais fora de série que carregam uma trajetória rica e cheia de personalidade. Sua origem remonta à metade da década de 1970, quando o empresário Humberto Pimentel Duarte, então à frente da Companhia Industrial Santa Matilde, em Três Rios, no Rio de Janeiro, decidiu desenvolver um automóvel com proposta diferenciada.

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Santa Matilde SM 4.1 – Foto: divulgação

Empresa de vagões de trem

A empresa, até então voltada à produção de vagões ferroviários e implementos agrícolas, passou a mirar um carro de uso cotidiano, mas com desempenho e estilo exclusivos. A ideia ganhou força após a frustração do próprio Humberto com a longa espera, de cerca de um ano e meio, por um Puma GTB, o que acabou servindo como impulso para criar um modelo próprio.

Primeiros traços do Santa Matilde SM 4.1

O cenário era favorável: além do desejo por exclusividade, havia dentro de casa alguém com afinidade pelo tema. Sua filha, Ana Lídia Pimentel Duarte, então com 19 anos, tinha grande interesse por design automotivo e foi responsável pelos primeiros traços do carro. O projeto ganhou forma e, em 1977, apareceu pela primeira vez ao público durante a Brasil Export 77. Apesar da boa recepção inicial, Humberto entendeu que ainda havia espaço para evolução. Um ano depois, no Salão do Automóvel de 1978, o Santa Matilde SM 4.1 surgiu em sua configuração definitiva, pronto para chegar ao mercado.

Santa Matilde SM 4.1 – Foto: divulgação

Powertrain de Opala

Na base mecânica, o modelo seguia uma receita já conhecida entre os esportivos nacionais da época. Assim como o Puma GTB, adotava o conjunto do Chevrolet Opala de seis cilindros. O motor 250 entregava 127 cv e torque de 29 m·kgf, enquanto o peso ficava pouco abaixo dos 1.300 kg. A suspensão também vinha do Opala, com molas helicoidais. Em dimensões, media 4.180 mm de comprimento, 1.715 mm de largura e 1.320 mm de altura, com entre-eixos curto, de 2.370 mm.

Santa Matilde SM 4.1 – Foto: divulgação

Por dentro do Santa Matilde SM 4.1, o cuidado com o acabamento era um dos grandes diferenciais. O interior oferecia itens sofisticados para os padrões da época, como ar-condicionado, direção assistida hidraulicamente e vidros elétricos. Os bancos revestidos em couro reforçavam a proposta mais refinada do modelo, algo pouco comum entre esportivos nacionais independentes.

Evoluções

A evolução continuou nos anos seguintes. Em 1980, o Santa Matilde SM ganhou novas opções mecânicas, incluindo o motor 250-S de 153 cv e versões de quatro cilindros movidas a álcool, com possibilidade de preparação aspirada ou turbo. Além disso, passou a contar com a opção de câmbio automático de quatro marchas, também oriundo do Chevrolet Opala, ampliando o apelo para quem buscava conforto aliado ao visual diferenciado.

Santa Matilde SM 4.1 – Foto: divulgação

Já em 1984, aproveitando o bom momento comercial, a Santa Matilde decidiu ampliar a linha com uma versão conversível. O modelo adotava um sistema de capota inspirado no Mercedes-Benz SL, com opção de teto rígido e cobertura em lona. Apesar da proposta esportiva, o desempenho não superava o do Chevrolet Opala SS-6. O SM acelerava de 0 a 100 km/h em aproximadamente 13 segundos e alcançava pouco mais de 170 km/h. Hoje, esses números se aproximam de carros 1.0, mas, naquele período, estavam dentro do esperado para veículos de bom desempenho.

Vida do SM foi ficando complicada

O cenário começou a mudar no fim da década. A chegada de modelos mais modernos, como o Volkswagen Gol GTi em 1988 e o Chevrolet Kadett GS em 1989, trouxe opções com melhor desempenho e custo significativamente mais baixo. Isso fez com que o público passasse a olhar com mais atenção para os chamados “pocket rockets” das grandes montadoras, reduzindo o espaço do Santa Matilde no mercado.

Santa Matilde SM 4.1 – Foto: divulgação

Além disso, o preço sempre foi um fator complicado na vida do Santa Matilde SM 4.1. No início dos anos 1980, um exemplar custava cerca de 20 mil dólares, valor que, atualizado, se aproxima dos R$ 350 mil atuais. Com esse montante, era possível adquirir dois Chevrolet Opala Comodoro seis cilindros zero-quilômetro. Ou seja, não era um carro acessível, e quem possuía um podia ostentar um dos modelos mais caros disponíveis no Brasil naquele momento.

Últimas unidades

Em 1988, a fabricante encerrou a aceitação de novos pedidos, mantendo a produção até 1990 apenas para atender encomendas já realizadas. Ao todo, foram fabricadas 937 unidades do SM, considerando todas as versões. Nos anos seguintes, a Santa Matilde passou a focar no fornecimento de peças de reposição e na produção sob encomenda para alguns poucos entusiastas. A última unidade definitiva do Santa Matilde SM 4.1 saiu em 1997, equipada com o motor 3.0 seis cilindros alemão que também foi utilizado no Chevrolet Omega até 1993.

Santa Matilde SM 4.1 – Foto: divulgação

Foi parar em Paris

Entre as curiosidades da trajetória do Santa Matilde SM 4.1, uma se destaca. No início dos anos 1980, um exemplar foi exibido em um evento automobilístico em Paris. O carro chamou a atenção de um empresário americano, que encomendou à Santa Matilde a produção de réplicas do lendário AC Cobra. A empresa aceitou o desafio e produziu 57 unidades, equipadas com motor Chevy V8 350, câmbio Dana de cinco marchas e eixo traseiro de origem Jaguar.

Santa Matilde SM 4.1 – Foto: divulgação

Pela sua história e proposta, o Santa Matilde SM 4.1 se consolidou como um dos principais representantes dos esportivos nacionais fora de série, ao lado de modelos como o Puma GTB, deixando sua marca na indústria automobilística brasileira.