O crescimento exponencial da frota eletrificada no Brasil trouxe consigo um fenômeno de desinformação técnica. Temas como a estabilidade química das baterias, segurança e comportamento dos sistemas de alta tensão de carros elétricos em condições adversas geram debates acalorados.

Alguns casos de incêndio no Brasil geraram notícias infundadas ou sem a devida apuração. Casos relacionados a uso indevido de carregadores portáteis, uso de carregadores sem instalação correta ou com adaptadores e gambiarras foram tratados indevidamente como “defeitos” dos carros elétricos.

Para esclarecer o cenário real, Jones Poffo, engenheiro eletricista e CEO da P3 Engenharia, analisa os protocolos de segurança que tornam esses veículos, em muitos aspectos, superiores aos modelos tradicionais.

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Incêndios: estatística vs. percepção

A percepção de que carros elétricos são mais propensos a incêndios é um dos maiores equívocos do setor. Dados compilados por seguradoras e sites especializados, como o Auto Insurance REZA, demonstram que a probabilidade de um incêndio em veículos movidos a combustíveis fósseis é drasticamente maior, chegando a uma proporção de 60 para 1, contra 4.000 para 1 para os carros elétricos — ou seja, os BEVs têm um risco, segundo dados mais aceitos, de 60 a 100 vezes menor.

De acordo com Jones Poffo, a diferença reside na sofisticação do monitoramento. Enquanto o motor a combustão lida com líquidos altamente inflamáveis sob pressão e calor, o veículo elétrico opera com um Sistema de Gerenciamento de Bateria (BMS). Este software monitora em tempo real a temperatura e a voltagem de cada célula, sendo capaz de isolar o sistema instantaneamente em caso de qualquer anomalia térmica ou impacto severo.

Novas baterias Blade da BYD – Foto: divulgação

No entanto, é um fato técnico que, quando o incêndio de um carro elétrico ocorre, o fogo é consideravelmente mais difícil de ser combatido. Diferente dos motores a combustão, as baterias de íon-lítio podem sofrer um fenômeno chamado thermal runaway (fuga térmica), onde o calor gera oxigênio internamente, realimentando as chamas.

Isso exige medidas específicas e intensas das equipes de bombeiros, como o uso de volumes de água muito maiores para o resfriamento total das células ou até a submersão do veículo em tanques, visando impedir que o calor reinicie o incêndio mesmo após as chamas aparentes terem sido extintas.

Blindagem e comportamento em áreas alagadas

Uma dúvida frequente entre motoristas brasileiros diz respeito a enchentes e dias de chuva intensa. Tecnicamente, os componentes de alta tensão de um veículo elétrico possuem índices de proteção (IP) elevados, garantindo que o sistema seja totalmente estanque.

Poffo destaca uma vantagem estrutural pouco discutida: a ausência de admissão de ar e escapamento. Em veículos convencionais, a entrada de água pelo filtro de ar causa o calço hidráulico, destruindo o motor.

No carro elétrico, por ser um sistema selado, a capacidade de atravessar trechos alagados (dentro dos limites de segurança da montadora) é superior, sem o risco de pane mecânica por infiltração de fluidos nos cilindros. Leia mais a respeito aqui.

Tesla Cybertruck na enchente – Foto: reprodução/Techrax no YouTube

Radiação e proteção eletromagnética

A preocupação com a emissão de campos eletromagnéticos também é recorrente. O especialista reforça que os veículos elétricos são submetidos a testes rigorosos de Compatibilidade Eletromagnética (EMC).

Os níveis medidos dentro da cabine estão significativamente abaixo dos limites estabelecidos por órgãos internacionais como a Comissão Internacional de Proteção contra Radiação Não Ionizante (ICNIRP) e a Organização Mundial da Saúde (OMS), sendo comparáveis ou menores que os de eletrodomésticos comuns.

Diretrizes técnicas para maximizar a vida útil e a segurança

Para garantir que a segurança projetada pela engenharia se mantenha ao longo dos anos, Jones Poffo elenca boas práticas essenciais para o proprietário:

  1. Gestão de carregamento: priorizar a recarga em corrente alternada (AC) para uso diário. O carregamento ultra-rápido (DC) deve ser utilizado em viagens, pois o calor gerado pela alta potência acelera a degradação química das células.

  2. Infraestrutura de recarga: a instalação de um wallbox residencial deve ser precedida de um projeto elétrico que avalie a capacidade dos condutores e a proteção contra surtos. Adaptações em tomadas comuns sem verificação profissional aumentam o risco de sobrecarga na rede interna da residência.

  3. Manutenção de sistemas de arrefecimento: muitos motoristas ignoram que as baterias possuem um sistema de resfriamento líquido. Manter o fluido de arrefecimento no nível e prazo corretos é vital para evitar o superaquecimento durante a recarga ou em condução esportiva.

  4. Normas técnicas: certificar-se de que o veículo atende aos padrões da SAE (Society of Automotive Engineers) e da Comissão Europeia, que exigem protocolos como o corte automático de energia em milissegundos após o acionamento dos airbags.

Foto: Divulgação

Conclusão

A segurança da eletrificação não é baseada em suposições, mas em camadas de redundância tecnológica. Para o CEO da P3 Engenharia, o conhecimento técnico é a ferramenta definitiva para combater o medo infundado. Quando operados dentro das normas técnicas e com a infraestrutura adequada, os veículos elétricos são seguros.