HR-V, Creta e Kicks fazem com SUVs o que Corolla e Civic fizeram com sedãs; Toyota está fora da festa

O trio oriental formado por Honda HR-V, Hyundai Creta e Nissan Kicks começa o ano na liderança e já domina mais de 40% do segmento de SUVs compactos. Será que repetirão o sucesso dos japoneses entre os sedãs médios? E a Toyota, quando vai se mexer?

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Em setembro passado, fizemos um comparativo com o novo EcoSport, SUV compacto mais vendido da nossa história, desafiando os líderes na época, Honda HR-V e Jeep Renegade. Desde então, porém, o jogo mudou: no segundo semestre de 2017, o Renegade, que foi vice-líder em 2016 atrás do HR-V e estava firme nessa posição no primeiro semestre do ano (e chegou a ser líder, em agosto) cedeu de vez o segundo/terceiro lugar para a dupla Hyundai Creta (que, como eu disse no lançamento, tinha mesmo a fórmula do sucesso) e Nissan Kicks. Assim, HR-V, Creta e Kicks estão fazendo com os SUVs compactos o que Corolla e Civic fizeram com os sedãs médios. E a Toyota ainda está fora da festa!

Vamos aos números. Desconsiderando o irmão Jeep Compass, um SUV médio, o Renegade fechou 2017 ainda em terceiro entre os SUVs compactos, deixando o quarto lugar para o Kicks. Olhando para a participação de mercado, no total de 2017 o HR-V teve 17,3% das vendas e o Creta 15,1%, enquanto o Kicks ficou com 12,1% –  perdendo para o Renegade, com 13,9%.

No entanto, se pegarmos apenas os últimos seis meses, foram emplacados 24.923 unidades do HR-V, 24.010 do Creta e 21.557 do Kicks – deixando para trás os 19.884 Jeep Renegade emplacados e os 17.887 Ford EcoSport vendidos. Na média, foram 4.154 unidades mensais do japonês HR-V, 4.002 do sul-coreano Creta e 3.593 do também nipônico Kicks. E considerando os SUVs compactos só agora em janeiro, foram 3.874 HR-V, contra 3.331 Kicks e 2.875 Creta. Em market-share (apenas compactos), temos 16% para o Honda, 13,8% para o Nissan e 11,9% para a Hyundai.

O ano de 2018 começou, portanto, com a participação somada do trio HR-V, Creta e Kicks representando já 41,7% do segmento – quase metade! Formou-se, assim, um novo e imbatível trio oriental? Quase certamente, na minha opinião. E a seguir o exemplo dos sedãs médios, a participação desses três deve só aumentar.

No caso dos sedãs médios, dois orientais sozinhos, os japoneses Civic e Corolla (leia aqui comparativo), detonaram com os modelos nacionais não muito depois de sua chegada, ainda no final dos anos 1990. Acabaram com Chevrolet Vectra, VW Santana, Ford Focus e cia., chegando a ter incríveis 76,5% do mercado em 2003.

Mesmo depois da reação dos nacionais, mantiveram um domínio de cerca de 50% do mercado por uma década (2006 a 2015), aumentando de novo essa participação  para cerca de 60% em 2016 e 2017 – sendo 40/45% das do Toyota Corolla, que abriu enorme vantagem sobre o Civic e deixou de ser ameaçado por ele (o Civic vem, inclusive, sendo ameaçado pelo Chevrolet Cruze, que começou esse ano em segundo lugar).

Honda Civic e Toyota Corolla: eles dominaram o segmento de sedãs médios (Foto: Roberto Assunção)

Voltando aos SUVs, no fim das contas, foi a italiana Fiat que germinou o segmento de SUVs compactos com sua linha Adventure. Foi a americana Ford que o inaugurou oficialmente, amadurecendo a ideia e dominando o mercado por mais de dez anos. Foi a francesa Renault que aproveitou a onda e surfou nela com o Duster. E agora são os japoneses e coreanos que dominam o segmento.

Por que isso aconteceu e tende a se intensificar? Pelos mesmos motivos que consagraram os sedãs japoneses. Não se trata de luxo, sofisticação ou mimos. Na verdade o sucesso deles vem de uma combinação de fatores. Eles não têm o melhor desempenho ou a cabine mais caprichada, mas quase sempre são mais econômicos, têm concessionárias com um atendimento mais correto, mecânica confiável e manutenção barata. E isso tudo acarreta, também, em baixa desvalorização e uma boa fama que as demais marcas até tentam igualar, mas não conseguem.

Sim, a vida de Ford EcoSport, Renault Duster/Captur, Chevrolet Tracker, Peugeot 2008 e cia. deve ficar cada dia mais difícil. E o Volkswagen T-Cross, que chega este ano, deve ter enormes dificuldades para penetrar nesse segmento, até por ser menos que a média.

E, como se essa turma ocidental não tivesse problemas suficientes, vale lembrar que a Toyota ainda está fora dessa festa. Por erro de planejamento ou cautela excessiva, não posso precisar, mas o fato é que se o projeto do C-HR – que de fato tinha problemas para ser competitivo por aqui – foi de fato enterrado e o que vem por aí é uma versão de um Daihatsu (marca-irmã) de baixo custo, não importa. Quando a Toyota chegar, mesmo que erre um pouco a mira, deve acabar com uma participação expressiva e se somar a esse poderoso trio formado por HR-V, Kicks e Creta.