Ainda existe muita resistência quando o assunto são os SUVs compactos. Para uma parcela do público, utilitário de verdade precisa ter chassi separado, tração integral e, em alguns casos, até motor a diesel. Tudo o que foge desse padrão acaba rotulado como “SUV de shopping”, crossover ou algo parecido. A questão é que, goste ou não dessa definição, há critérios técnicos que sustentam essa classificação, e eles vêm do INMETRO. 

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Renault Stepway Zen MT5 e Renault Kardian Evolution MT6 – Foto: Lucca Mendonça

SUV: que bicho é esse e de onde ele veio?

SUV é a sigla para Sport Utility Vehicle, ou Veículo Utilitário Esportivo. O termo “esportivo” não está ligado à performance, mas à proposta de uso mais versátil e aventureira. Já o lado “utility” remete à praticidade, com espaço interno mais bem aproveitado, porta-malas funcional e maior capacidade de adaptação ao dia a dia. A expressão surgiu em 1974, criada pela Jeep para identificar o Cherokee, e acabou se tornando um padrão adotado pela indústria. 

Jeep Cherokee 1974 – Foto: divulgação

Hatches altinhos

No mercado brasileiro, essa discussão ganhou força com a popularização dos chamados hatches aventureiros, entre os anos 2000 e 2010. Modelos como CrossFox e HB20X apostavam no visual robusto, mas seguiam limitados pela base de hatch compacto. Com o fim dessa tendência, o segmento evoluiu para os SUVs derivados de hatches, categoria onde se encaixam Fiat Pulse, VW Nivus, VW Tera, Renault Kardian e afins, além dos já aposentados JAC T40, Caoa-Chery Tiggo 2 ou Honda WR-V de primeira geração.

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Quem é SUV pequeno e quem é hatch altinho? 

Colocados lado a lado, um Renault Stepway (hatch) e um Fiat Pulse (SUV) até compartilham alguns elementos visuais. Ambos exibem molduras plásticas nas caixas de roda, racks no teto e para-choques com desenho mais agressivo. As semelhanças, porém, param por aí. O Stepway mantém proporções típicas de hatch, com cerca de 14 cm de altura livre do solo. O Pulse, por sua vez, chega perto dos 19 cm, além de adotar linha de cintura mais elevada, para-lamas mais marcados e uma dianteira mais alta e reta, reforçando a sensação de utilitário. 

Renault Stepway Zen MT5 e Fiat Pulse Drive CVT – Foto: Lucca Mendonça

No interior, o Pulse não chega a ser referência absoluta em espaço ou porta-malas dentro do universo SUV, justamente por partir de uma plataforma compacta. Ainda assim, oferece bom nível de conforto. Em comparação direta com o Stepway, as diferenças de acesso e movimentação interna não são tão grandes. O ponto-chave está na forma como cada um encara o uso diário. 

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O que diz o INMETRO?

Segundo o INMETRO, um veículo só pode ser classificado como SUV se atender a pelo menos quatro de cinco critérios técnicos. São eles: altura mínima de 20 cm do solo entre os eixos, pelo menos 18 cm de altura livre, ângulo de ataque de 23 graus, ângulo de saída de 20 graus e ângulo de transposição de rampa de 10 graus. 

Renault Stepway Zen MT5 e Renault Kardian Evolution MT6 – Foto: Lucca Mendonça

Dentro dessas regras, o Fiat Pulse foi desenvolvido para praticamente “fechar a conta”. O modelo entrega 22,4 cm de altura do solo entre os eixos, 19 cm de altura livre, 31,4 graus de ângulo de saída e 21,3 graus no ângulo de transposição de rampa. Fica abaixo apenas no ângulo de ataque, com 20,5 graus, ainda assim suficiente para cumprir quatro dos cinco requisitos exigidos. Resultado: classificação oficial de SUV. 

Renault Stepway Zen MT5 e Fiat Pulse Drive CVT – Foto: Lucca Mendonça

Na prática, isso aparece no maior curso das suspensões e na facilidade para encarar buracos, lombadas e irregularidades comuns nas ruas brasileiras. O fim de curso do conjunto é mais difícil de ser atingido, algo que não acontece com a mesma eficiência em um hatch aventureiro, por mais robusto que ele seja. Essa lógica vale para praticamente todos os SUVs compactos e, do outro lado, para os hatches elevados. 

Renault Stepway Zen MT5 e Renault Kardian Evolution MT6 – Foto: Lucca Mendonça

Para a fábrica, é mais fácil (e lucrativo)

Do ponto de vista das fabricantes, transformar um hatch em SUV não é nenhum bicho de sete cabeças. Ajustes de suspensão, novas geometrias, recalibração de direção e freios, visual mais imponente e, em alguns casos, um pacote de equipamentos mais completo resolvem o projeto. O mercado, por sua vez, responde de forma clara. 

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Não é à toa que as marcas evitam associar seus SUVs compactos aos hatches de origem. A diferença de valor deixa isso evidente: enquanto o Fiat Argo custa hoje entre R$ 93 mil e R$ 109 mil, o Pulse parte de R$ 102 mil e belisca os R$ 150 mil nas versões mais completas, com motor turbo e sistema híbrido-leve. Mais exemplos: um Polo varia entre R$ 93,7 mil e R$ 135 mil, e o Tera vai de R$ 105,9 mil a R$ 142 mil. 

Fiat Pulse Impetus T200 Hybrid - Foto: Lucca Mendonça
Fiat Pulse Impetus T200 Hybrid – Foto: Lucca Mendonça

No fim das contas, nem todo hatch elevado pode ser chamado de SUV. Mas, seguindo as regras atuais, todo SUV compacto entrega mais do que aparência. E é isso que, oficialmente, define a categoria.