Um novo adeus

Em sua última disputa na F-1, no Grande Prêmio do Brasil, em novembro passado, Michael Schumacher, que corria com o carro número sete, finalizou o campeonato na sétima colocação. Exatamente a mesma posição em que largou em sua primeira corrida, 21 anos atrás, em Spa. Exatamente o mesmo número de vitórias que obteve ao longo de sua carreira. Para os místicos, foi como fechar um ciclo. Para ele, apenas uma coincidência. “Foi estranho ter terminado na mesma posição que cheguei na primeira qualificação, em Spa-Francorchamps, há 308 corridas. Percebi que também estava dirigindo o carro de número sete hoje. E tenho sete títulos mundiais”, declarou.

Nascido no dia 3 de janeiro de 1969, o alemão iniciou sua carreira na F-1 no dia 25 de agosto de 1991, a bordo de uma Jordan-Ford. O posto pertencia ao belga Bertrand Gachot, preso após uma briga em Londres. Apesar de já ter feito algum sucesso no kart e em categorias menores de fórmula, o piloto estava disputando o Campeonato Mundial de Protótipos na equipe de Peter Sauber com apoio da Mercedes quando a oportunidade surgiu. Apesar de abandonar a prova no início, por problemas no câmbio, Schumacher impressionou na classifi cação, quando obteve a sétima posição no grid. Poucos dias depois, Eddie Jordan e seu diretor comercial Ian Phillip já haviam disputado – e perdido – o garoto prodígio para uma pequena e promissora escuderia: a Benetton.

Todos reconheciam o talento promissor do jovem alemão. Mas ninguém poderia imaginar que ele viria a se tornar não apenas um campeão, mas o maior campeão da F-1. Ele viria a se tornar o Schumi. Foram sete mundiais (dois com a Benetton em 1994 e 1995 e uma sequência inacreditável de cinco títulos com a Ferrari de 2000 a 2005), 308 grandes prêmios, 91 vitórias em provas, 77 voltas mais rápidas e 68 pole positions. Será muito difícil – talvez impossível – algum outro piloto superar seus resultados. Schumacher corria atrás de recordes e conseguiu quebrar praticamente todos eles. “Minha filosofia sempre foi nunca desistir”, falou após a corrida de despedida. Tornou-se o piloto mais rico de seu tempo, com uma fortuna estimada em € 700 milhões, e decidiu deixar a F-1. Sua primeira despedida foi em 2006, também em Interlagos.

Depois de três anos longe das pistas e de uma tentativa frustrada no motociclismo, voltou à F-1 pela equipe Mercedes, onde ficou até sua segunda aposentadoria no final da temporada de 2012. O período na escuderia alemã não acrescentou muito à sua carreira, já que uma pole em Monte Carlo não pode ser considerada um feito para um heptacampeão. Para alguns essa reestreia até prejudicou sua imagem. “Eu preferia que ele não tivesse voltado. A nova geração de torcedores não vai se lembrar dele como o herói que foi, mas como um homem que pode falhar”, afirmou à agência Reuters o todo-poderoso da F-1, Bernie Ecclestone. De fato, a segunda aposentadoria não foi tão triunfal quanto a primeira. Schumi sai de cena substituído, pela primeira vez em sua carreira. De cabeça erguida, mas quase derrotado. “Quero agradecer ao meu time e aos fãs pelo apoio durante os últimos anos”, despediu-se. Mas a história se encarregará de mantê-lo como um ícone de seu tempo.

Mas não apenas de troféus se faz uma bela carreria. E, também graças a essa prorrogação na Mercedes, a sua foi tão longa que permitiu que ele dividisse a pista tanto com lendas do automobilismo – como Senna, Mansell, Prost e Piquet – quanto com seus sucessores: Häkkinen, Damon Hill e Jacques Villeneuve. Permitiu que ele corresse ao lado do irmão, Ralf Schumacher; testemunhasse a tragédia de Senna em Ímola e o nascimento de um novo ídolo e campeão: Fernando Alonso. Ele começou em uma F-1 na qual se usava pantógrafos e encerrou sua carreira na era dos simuladores. Tem que se respeitar!

Quando chegou ao circo da Fórmula 1, não havia nenhum alemão correndo na categoria. Quando se aposentou pela primeira vez, seis deles circulavam pelo paddock. Ele mudou a história naquele agosto de 1991, colocando a Alemanha no centro da cena e abrindo caminho para seus compatriotas. E agora, em sua despedida, terminou como começou: abrindo caminho para outro alemão ao facilitar a ultrapassagem de Sebastian Vettel. Será que sua volta à F-1 foi mesmo tão insignificante como dizem? Uma pole apenas? Que seja…

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