Nesses 47 anos da Stock Car no Brasil, em 2025 a categoria passou por uma de suas maiores e mais radicais mudanças de regulamento. Em termos de design, os carros, que ao longo das décadas tiveram aparência de cupê ou sedã, passaram a adotar formas de SUV (Sport Utility Vehicle).

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Corrida de Stock Car – Foto: divulgação

Stock Car antes dos SUVs

Estruturalmente, desde os Omega no final dos anos 90, a Stock Car vinha utilizando um chassi tubular de aço revestido por uma carroceria de fibra de vidro, em vez da estrutura monobloco original do carro da Chevrolet, utilizada até 1999. Sem dúvida, esse foi um grande passo evolutivo para a categoria de carros de turismo mais veloz do país. Em vez de carros monobloco adaptados para corridas, os chassis tubulares permitiam veículos projetados especificamente para competição, deixando de ser meras adaptações.

Chevrolet Vectra de Stock Car em 2010 – Foto: divulgação

Chegada dos SUVs

Para tornar-se mais moderna e familiar aos olhos do público que acompanha as corridas, após 2023 os dirigentes da Stock Car começaram a pensar em substituir os carros de aparência sedã pelos corriqueiros e populares SUVs. Claro que foi necessário desenvolver um novo projeto, que não tivesse apenas aparência de SUV, mas que também se enquadrasse mecanicamente no que de mais moderno entre os carros de competição da categoria turismo ao redor do mundo.

SUVs de Stock Car – Foto: divulgação

2.1 turbo e V8 aspirado

Alguns aspectos foram mantidos, como o motor e o câmbio dispostos longitudinalmente e a tração traseira, que facilita a pilotagem. Em 2024, quando o novo carro foi desenvolvido, os dirigentes optaram por substituir o tradicional motor V8 5.7 por um moderno motor turbo de quatro cilindros e 2.1 litros.

Mitsubishi Eclipse Cross de Stock Car – Foto: divulgação

Os dois motores, tanto o V8 quanto o turbo, produziam aproximadamente a mesma potência, cerca de 500 cv. A grande diferença entre eles estava no torque. O V8 gera cerca de 58 mkgf de torque máximo, enquanto o motor turbo produz 47 mkgf. Essa diferença se reflete principalmente nas retomadas de velocidade e nas saídas de curva. O V8 é muito mais esperto e arisco, exigindo mais do piloto, que pode rodar se acelerar antes da hora.

Chevrolet Tracker de Stock Car – Foto: divulgação

Mas a vida é feita de compensações. O problema do V8, quando comparado ao turbo, é que ele pesa cerca de 50 quilos a mais, alterando completamente a distribuição de peso entre os eixos e, consequentemente, o equilíbrio do carro.

Problemas com o 2.1 turbo

Corrida de Stock Car – Foto: Magnus Torquato

Na temporada de 2025, as equipes da Stock Car reclamaram muito dos novos motores turbo. Para garantir equilíbrio na categoria, os motores são sorteados e entregues às equipes sob a premissa de que todos apresentam desempenho semelhante. Esse sistema garante igualdade entre carros e pilotos. Todos dispõem da mesma potência e torque, e a diferença fica por conta da habilidade dos pilotos e dos acertos finos realizados nas suspensões e nos detalhes aerodinâmicos.

Corrida de Stock Car – Foto: Magnus Torquato

Mas não foi o que aconteceu no ano passado. As equipes da Stock Car brasileira enfrentaram muitos problemas de quebras e discrepâncias de potência. Em algumas corridas, certos carros eram visivelmente mais rápidos nas retas, indicando diferenças claras de desempenho.

Grande parte desses problemas estava ligada à válvula que regula a pressão do turbo, que frequentemente apresentava falhas. Como os motores de quatro cilindros e 16 válvulas operavam em rotações muito elevadas, atingindo a potência máxima por volta de 7.600 rpm, e eram submetidos ao ritmo intenso imposto pelos pilotos, as quebras acabaram sendo inevitáveis.

Corrida de Stock Car – Foto: Magnus Torquato

A volta do V8 na Stock Car

Quebras de motores, unidades com potências muito diferentes, superaquecimento, falhas nas turbinas e nas válvulas reguladoras de pressão fizeram com que os índices de abandono fossem altos e as reclamações das equipes cada vez mais frequentes. Diante de tantos problemas técnicos e das constantes reclamações, os dirigentes resolveram, em caráter emergencial, retomar para a temporada de 2026 os bons, velhos e confiáveis motores V8 5.7.

Carros de Stock Car – Foto: divulgação

Fundido em alumínio, com quatro comandos de válvulas nos dois cabeçotes e 32 válvulas no total, quatro por cilindro, esse motor deriva da unidade de potência utilizada no Corvette. Ele foi originalmente desenvolvido pela engenharia da GM e posteriormente trabalhado e refinado pela própria engenharia da Stock Car. Trata-se de uma unidade moderna, robusta e plenamente capaz de atender às exigências de resistência e performance da categoria.

Esses motores podem desenvolver entre 460 e 500 cv a 6.000 rpm, dependendo do mapa de injeção e ignição utilizado em cada circuito.

Corrida de Stock Car 2026 – Foto: Marcelo Machado de Melo

Adaptações

A adaptação do V8 aos SUVs da Stock Car não foi tão complicada. O chassi tubular, construído em aço especial de alta resistência, possuía um berço capaz de acomodar o motor V8. Retirou-se a unidade turbo de quatro cilindros e instalou-se o 5.7, cerca de 50 quilos mais pesado. Também foram projetados novos coletores de escapamento adequados ao desenho dos SUVs.

Corrida de Stock Car 2026 – Foto: Marcelo Machado de Melo

O grande trabalho das equipes foi acertar molas e amortecedores para lidar com a maior massa no eixo dianteiro, fator que poderia até comprometer a tração no eixo traseiro. Mas competência não falta à Stock Car, com seus quase 50 anos de história.

Os ajustes na geometria de direção, na carga das molas dianteiras e traseiras, na recalibração dos amortecedores e nas barras estabilizadoras permitiram que o bom chassi desenvolvido no ano passado se adaptasse perfeitamente ao novo motor e aos quase 11 mkgf extras de torque.

Acelerando mais, e quebrando menos

Corrida de Stock Car 2026 – Foto: José Mario Dias

No final das contas, a performance dos carros melhorou. Na primeira prova da temporada, disputada no autódromo de Curvelo, em Minas Gerais, o equilíbrio da categoria foi restabelecido. E, para os mais puristas, o som do V8 girando alto voltou a fazer a alegria do público. Que esses V8 continuem alegrando as nossas pistas, inclusive na Stock Car.