03/01/2026 - 16:00
Gol e Porsche? Pois é. Quando a Fiat lançou o 147 no Brasil, em 1976, o mercado nacional sentiu pela primeira vez o impacto de um hatch compacto realmente moderno. Pequeno por fora, funcional por dentro e com motor transversal, o modelo italiano trouxe soluções inéditas para o consumidor brasileiro. No fim da década, a chegada das versões 1300, mais potentes e com melhor desempenho, ampliou ainda mais sua aceitação.
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Fusca precisava ser substituído
Naquele momento, a Volkswagen tinha como principal produto o Fusca, ainda vendido em bom volume, especialmente na versão 1300. O problema era conceitual. O carro havia sido projetado nos anos 1930 e, apesar de atualizações pontuais ao longo das décadas, já não conseguia competir em modernidade com os novos hatches que começavam a ocupar as ruas. O Passat, lançado em 1974, representava um avanço, mas não resolvia a necessidade de um sucessor direto para o Fusca.
Aí veio o Gol

Foi nesse cenário que nasceu o projeto do Gol. A missão era clara e complexa. Criar um automóvel moderno, mas que preservasse os atributos responsáveis pelo sucesso histórico do Fusca. Robustez mecânica, manutenção simples, ampla oferta de peças, direção descomplicada, baixo consumo e capacidade de funcionar com a gasolina de baixa octanagem disponível no Brasil. Tudo isso precisava caber em um carro acessível e pronto para produção em larga escala.

O desenvolvimento avançou rapidamente na segunda metade dos anos 1970. Protótipos já rodavam em testes de resistência enquanto a engenharia definia soluções técnicas. Para manter custos sob controle e garantir confiabilidade, a Volkswagen optou por utilizar o conhecido motor 1300 refrigerado a ar do Fusca. A escolha também tinha apelo estratégico, já que o rival Fiat 147 oferecia essa cilindrada apenas nas versões mais caras, enquanto o Gol poderia entregá-la desde a configuração básica.

Carro novo, motor velho
O problema estava no desempenho. Com apenas 38 cv, o velho 1300 era insuficiente para sustentar a proposta de um hatch moderno. Foi então que surgiu um dos capítulos mais curiosos da história do Gol. Ainda na década de 1970, a Volkswagen enviou o motor para a Porsche, na Alemanha, com a missão de modernizar o projeto sem comprometer a confiabilidade.

Porsche melhorou, mas na prática…
Os engenheiros de Stuttgart redesenharam câmaras de combustão, melhoraram a eficiência da queima e criaram soluções que permitiam maior aproveitamento da mistura ar-combustível. Também houve avanços no sistema de arrefecimento, com a adoção de uma ventoinha de baixa inércia, mais eficiente, inspirada em soluções usadas pela própria Porsche em seus esportivos. O conjunto estava pronto para oferecer mais desempenho, mesmo respeitando as limitações do combustível brasileiro.

Na prática, porém, o projeto sofreu cortes antes de chegar às linhas de montagem. Preocupações com custos, margem de lucro e possíveis problemas de detonação levaram a Volkswagen a simplificar o conjunto. Parte das soluções mais sofisticadas foi descartada, e o motor acabou chegando ao mercado com ganhos modestos de potência.
Estreia decepcionante
Lançado em maio de 1980, o Gol estreou com 42 cv e desempenho abaixo das expectativas. Testes da época apontavam aceleração lenta e velocidade máxima limitada, números que frustraram parte do público. Ainda assim, o modelo cumpria sua função estrutural. Era mais espaçoso que o Fusca, mais moderno em concepção e preparado para evoluir.

Trocou de motor, e ganhou vida
E foi exatamente isso que aconteceu. Em pouco tempo, o Gol recebeu versões a álcool e motores mais potentes, incluindo o 1600 com dupla carburação, que finalmente colocaram o hatch em outro patamar. A partir dali, o carro conquistou definitivamente o consumidor brasileiro e iniciou uma trajetória de sucesso que o levaria a se tornar líder absoluto de mercado por 27 anos.

O primeiro Gol pode não ter brilhado em desempenho, mas foi o ponto de partida de uma das histórias mais bem-sucedidas da indústria automotiva nacional. E, escondido sob o capô, carregava um detalhe que poucos conheciam. Um toque de engenharia da Porsche que ajudou a moldar o início de uma lenda sobre rodas.
